11 de jun de 2013

O CULTIVO DO QI - Harmonizando a Essência Vital

O homem que vive correndo morre demasiadamente cedo.
Três, entre dez, são servidores da vida.
Três, entre dez, são servidores da morte.
Três, entre dez, vivem ansiosamente.
Os homens que vivem ansiosamente mexem
o ponto de sua morte. Como assim?
Porque querem viver intensamente.
Mas o sábio que sabe governar sua vida, quando caminha
pelo deserto não encontra rinocerontes nem tigres e passa
através das batalhas sem levar couraça nem espada. ...
 Porque nenhum lugar nele se abre para a morte.
A conquista da morte – Poema 50 - Tao Te king
Introdução
A maioria das pessoas vive atribulada na correria da vida: trabalho, estudo, família, casa, sem observar um tempo de nutrir a própria essência, até mesmo para ter mais vida útil e produtiva.
Uns dizem: trabalho, trabalho, trabalho; outros: diversão, diversão...
Como a música do cantor e compositor Lobão: prefiro viver dez anos a mil, do que mil anos a dez...
Quem sabe devêssemos considerar o equilíbrio, conforme o Taoísmo, e caminhar procurando viver cem anos a cem? Do popular: É devagar que se vai longe.

Desfragmentador
Até mesmo uma máquina, o computador pessoal, por exemplo, possui um sistema de organização de memórias, que visa otimizar seu funcionamento no tocante à velocidade com que o computador lê seus arquivos, tornando a leitura dos mesmos mais fácil e rápida. O nome desse dispositivo é desfragmentador de disco.

Desgaste
Pessoas que ficam remoendo ou revivendo o passado, não muito raro tendem a depressão. Assim também, aquelas que cultuam o futuro, preocupadas em atingir metas, viver somente do futuro, com a mente sempre no que ainda poderá acontecer, tendem à ansiedade. Em ambos casos, os estados mentais promovem desgastes, esvaziamento de seu Qi (sopro vital).

Fatores mentais e emocionais mantêm ou modificam todo o nosso micro sistema multidimensional, para um lado ou outro. Vai depender somente da média dos Pensenes gerados em nossa manifestação diária. Dai a importância das pausas meditativas de reconexão.
Nas palavras de Deepak Chopra:
“Nós somos as únicas criaturas do planeta que podem modificar a própria biologia através dos pensamentos, sentimentos e intenções.”
E o desequilíbrio, a doença é o recurso que o organismo tem para sinalizar que perdemos o rumo, o alinhamento com a rede de sustentabilidade, com a fonte geradora do padrão vibratório de harmonia, fonte promotora da homeostase holossomática.
Aqui entramos nos conceitos filosóficos do TAO, a unidade que tudo mantém no processo de sustentabilidade.

O TAO
O Tao é o Caminho da espontaneidade natural.
É o que produz todas as coisas que existem e que inexistem. Pode ser considerado como a Divindade, o Absoluto, o Eterno, o Insondável, a Consciência Cósmica.
O conceito de Tao só pode ser apreendido por intuição.  É algo muito simples, mas não pode ser explicado. Temos demasiados conceitos internos para o entender como um todo uno.
O Livro do Caminho das Virtudes Supremas, Tao Te King de Lao Tsé, em seu primeiro poema intitulado TAO, diz:
O Tao que pode ser expressado não é o Tao Absoluto.
O nome que pode ser revelado não é o nome absoluto.
Sem nome, é o princípio do Céu e da Terra.
Com nome, é a Mãe de todas as coisas.
Assim, quem permanece sem desejos contempla o Misterioso Princípio.
Quem guarda desejos contempla o limite das aparências.
Ambos são idênticos na sua origem.
Diferentes são seus nomes ao fazer-se manifestos.
Este mistério chama-se infinita Profundidade.
Profundidade não desvelada pelo homem.
A porta de todas as maravilhas do Universo.
Para compreender essa sabedoria de Lao Tsé, deve o iniciando mergulhar em meditação para alcançar a real filosofia do ensinamento.


Alinhamento
A busca do alinhamento com o Tao irá proporcionar uma harmonização multidimensional, onde estará presente a saúde nos diversos níveis: mental, emocional, energético e consequentemente físico.
Este alinhamento deve começar pela postura física, observar as emoções e acalmar os desejos para relaxar a mente.
Como um diapasão metálico em forma de garfo que, por ressonância, faz vibrar a corda do violão que estiver no mesmo tom, quando obtivermos o centramento corpo/mente/espírito, a ressonância com o TAO estará em andamento.

``O ontem é história, o amanha mistério, mas o hoje é uma dádiva, por isso que se chama Presente!
´´ Mestre Hugo do Filme Kung Fu Panda
 Presente
O presente, o aqui/agora multidimensional contém a diretriz; é no presente que temos a chance de nos manter alinhados, procurando entrar em ressonância com o TAO. Quando isso acontece, nosso micro universo começa a vibrar saúde, tornando-se a vibração natural de harmonia do Universo.

Postura Básica ZHAN ZHUANG
Meditação
O que fazer para manter a mente no presente?
Treinos meditativos podem promover a organização e o refazimento bioenergético mental, emocional e físico.
Observando algumas formas de meditação ou mentalização, pude chegar à utilização de três técnicas que, em conjunto, poderão dar resultados mais eficazes:
Com esses três processos vamos priorizar as 3 correções intencionais, que é o nível inicial para prática do Qi Gong.
      1)    Ajustar e regular a postura corporal – Alinhamento da Coluna e relaxamento físico
      2)    Ajustar e regular a respiração - Esvaziando o peito – Emoção: Gratidão
      3)    Ajustar e regular a consciência - Acalmando os desejos para relaxar a mente


As três técnicas conjungadas:
      a)     Meditação Zhan Zhuang:
Seguir o quadro 01- Preparação para entrada no Zhan Zhuang.
Obs.: Os Braços poderão ficar ao lado do corpo, e se preferir pode-se optar por ficar sentado também.
      b)    Utilizar os Mudras (gestos de força) do Jin Shin Jyutsu, como no quadro 02, observando quais órgãos ou elemento que se quer harmonizar.
      c)     Sorriso interno:
Levar o sorriso interno aos órgãos correspondente ao dedo que se está trabalhando, com o seguinte mantra a cada expiração:
“EU SOU FELIZ E GRATO”

18 de abr de 2013

Uma Sessão de Tai Chi na CAMARA FEDERAL

No Tai Chi, Dr. Aristein Woo, Shizue Naka e José Milton
Foto: Yara Marcia Almeida

Em 12 de abril, sexta feira passada, realizou-se, no Plenário Ulysses Guimarães da Câmara dos Deputados, Sessão Solene referente ao Dia Mundial de Tai Chi e Chi Kung. Nessa sessão, proposta pela Deputada Erika Kokai, também foi homenageado o Mestre Moo Shong Woo, pelo seu trabalho voluntário de trinta e nove anos à frente da prática diária e gratuita de Being Tao Tai Chi Chuan, na entrequadra norte 104/105 (EQN 104/105) em Brasília, espaço que recebeu o nome de Praça da Harmonia Universal PHU, e que em 2007 foi declarada patrimônio cultural imaterial de Brasília.
Da direita para esquerda: Mestre Woo, Ministro José Meira,
Deputada Erika Kokai e Embaixador da China Li Jinzang

Os videos abaixo foram baixados do site da Câmara, onde podemos ver:
1º video: Pronunciamento da Deputada Erika Kokai.
2º video: Apresentação do Tai Chi Chuan 24 formas
3º video: Pronunciamento do Mestre Moo Shong Woo
4º video: Apresentação do Tai Chi Chuan com Leque - 18 formas Yang
e Demais fotos desse artigo foram copiadas do site da Deputada Erika Kokai

Materia de O GLOBO - Isabel Braga
Publicado em 12/04/2013

Mestre Woo, Ministro José Meira
e Deputada Erika Kokai
... Na presença de apenas três deputados, mas dezenas de convidados, o clima foi bem diferente. As pessoas estavam serenas e se encantavam com as apresentações de Tai Chi que intercalavam os discursos na tribuna, que pregavam a paz e enalteciam os benefícios da prática para a mente e o corpo. O Dia Mundial do Tai Chi Chuan é comemorado no dia 27 de abril.
Deputada Erika Kokai e Mestre Woo
Na mesa que presidiu a sessão, além da deputada Erika Kokay (PT-DF), autora da sessão solene, estavam o mestre Moo-Shong Woo, que há 39 anos ensina a prática do Tai Chi, de graça, em uma das quadras do Plano Piloto. O monge Shojo Sato, do Tempo Budista de Brasília e o ministro José Castro de Meira, do Superior Tribunal de Justiça (STJ) adepto da prática, também fizeram questão de estar presente à homenagem.
... Antes de encerrar a sessão, mas em clima zen, Erika Kokay afirmou:
- Quero enfatizar a necessidade de encararmos os seres humanos com iguais direitos e liberdades. Vivermos, a cada dia a lógica da igualdade e da paz. ...
Leia na Íntegra: http://oglobo.globo.com/pais/em-vez-de-tensao-na-camara-uma-sessao-de-tai-chi-chuan-8102197


Segue link da reportagem do "Diário da China" sobre a Sessão Especial referente ao Dia Mundial do Tai Chi e Chikung.



7 de abr de 2013

Homenagem ao Mestre MOO-SHONG WOO

Será realizada Sessão Solene referente ao Dia Mundial de Tai Chi e Chi Kung no dia 12 de abril, às 15h , no Plenário Ulysses Guimarães - Câmara dos Deputados. Na ocasião será também homenageado o Mestre Moo Shong Woo, pelo seu trabalho voluntário de trinta e nove anos à frente da prática diária e gratuita de Being Tao Tai Chi Chuan, na PHU-Praça da Harmonia Universal, situada na entre-quadra norte 104/105 (EQN 104/105) em Brasília. 

TODOS ESTÃO CONVIDADOS A PARTICIPAR DESSE EVENTO.

Dia Mundial de Tai chi chuan e Chi Kung é um evento realizado anualmente no último sábado do mês de abril para divulgar e promover as práticas de tai chi chuan e chi kung pelo mundo. Faz parte do calendário de eventos estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde, durante a comemoração do Mês da Saúde (Abril). A missão é divulgar publicamente o crescente conjunto de pesquisas na área médica relacionada as práticas corporais da MTC-medicina tradicional chinesa.

Mestre WOO - Dia Internacional do Tai chi chuan & Qi Gong - 2011
PHU- Praça da Harmonia Universal - EQ 104/105 norte - Brasília  2011




26 de mar de 2013

Meditação Chinesa - Qi Gong, Com Mestre WANG


 O que é Chi Kung ?
Mestre Wang Hsiao Po
O Chi Kung,traduzido literalmente por exercício, trabalho ou cultivo do sopro vital, não foi criado por um único indivíduo e resulta de milhares de anos de experiências dos chineses no uso da bioenergia para tratar doenças, promover a saúde e longevidade, melhorar as habilidades de luta, expandir a mente, alcançar diferentes níveis de consciência e desenvolver a espiritualidade. Apesar das diversas técnicas de Chi Kung terem se desenvolvido separadamente em diversos locais da China, em muitos casos se influenciaram mutuamente.

Derivado de técnicas milenares conhecidas como Tao Yin (Tipo de meditação – Sentar na Calma), o Chi Kung como é conhecido nos dias de hoje remonta à época da Dinastia Han (206 aC - 220 dC), quando começou a ser sistematizado. O próprio uso do termo Chi Kung é relativamente recente, data do início do século XX, sendo utilizado atualmente para referir-se a múltiplos exercícios, destinados a desenvolver a força (física, bioenergética, mental ou espiritual) ou para fins terapêuticos, mediante a utilização do Sopro Vital - Qi.


Objetivos do Curso:

Harmonizar o Corpo e a Mente. Tratar os Sistemas Imunológico, Neurológico, e Emocional (Insônia, Ansiedade, Estresse, Enxaqueca, dentre outros). Circulação Sanguinea e Coluna Vertebral.





Dia: 14/04/2013  Hora09hs as 15hs
Local: 915 Sul ED ADVANCE Sala/S1-138
ProfessorDr. Wang H. Po(aulas teóricas e práticas)
Fone: 61-3346-8068      61- 9988-7700 

Investimento do curso: R$ 360,00
Preço especial para Inscrições até o dia 08/04/2013 e
Para alunos de Tai Chi Chuan.
(Valor com desconto) R$ 280,00.


Tópicos que serão abordados no curso
1 – O que é Qi Gong (Cultivo do sopro vital)?Conceito, Características e estilos?
2 – O papel do Qi Gong sobre os reinos mineral, vegetal, animal e sobre a biologia humana?
3 - Qual é o estado mais elevado de auto-cultivo?
4- Três tipos de auto-cultivo?
5 - A importância da respiração e atenção no Qi Gong?
6- Concentração, respiração e o papel do movimento do corpo humano no Qi Gong?
7 - Consciência, subconsciência e Superconsciência - Conceitos
9- Idéia, Qual é o seu papel no Qi Gong?
10- Qual a diferença entre energia positiva e energia negativa?
11- Qual a função das doenças?
12- QUAIS OS CUIDADOS QUE DEVEMOS TER AO MEDITAR?
14- MANTRAS
15- Como aumentar a Imunidade?
16- QUAL a melhor ALIMENTACAO?
19- FUNÇÃO DOS CHACRAS
21- MEDITACAO
a) Periodicidade ...b) Tempo...c) Melhor hora...
22- QUAL RESPIRACAO CORRETA PARA NÃO INTERROMPER A MEDITACAO?
23- Qual é o significado do uso combinado de exercícios, emoções e idéias?

10 de mar de 2013

MEDICINA TRADICIONAL CHINESA, RACIONALIDADE MÉDICA - I Parte de 3

I Parte de 3 - Por Daniel Luz[1]
A medicina tradicional chinesa vem se firmando no cenário internacional como uma das mais procuradas alternativas aos tratamentos da medicina convencional. Contudo, esta medicina dita tradicional vem na realidade se formando continuamente: paradigmas anteriores não são eliminados ou superados, mas passam a orbitar as idéias mais recentes, guardando destas maior ou menor distância de acordo com o grau de ruptura ou segundo a agenda política do momento. Dessa forma, a medicina chinesa tornou-se uma colcha de retalhos onde coexistem idéias e práticas oriundas de períodos históricos e de paradigmas diferentes. Como o Projeto Racionalidades Médicas, em cujo âmbito foi produzida uma primeira versão deste material, focalizou sua atenção nos serviços da rede pública de saúde do Município do Rio de Janeiro, com seus profissionais, usuários, suas representações de corpo, cura, doença, tratamento, médico, doente, medicina etc., a “medicina tradicional chinesa” de que vamos tratar é a que pode ser encontrada nesses serviços e que se ensina nos cursos de formação disponíveis nas instuições brasileiras de ensino de acupuntura, com certas variações de escola para escola. Não pretendemos em nenhum momento defender que esta medicina chinesa, atualmente conhecida como MTC, seja mais legítima que suas outras versões, mas o fato é que é desta que milhares de pessoas doentes procuram resposta, quando todos os recursos já se esgotaram, e é nesta que milhares de estudantes no mundo todo depositam suas esperanças de melhor atender aos que sofrem. É, portanto, sobre uma determinada forma de medicina tradicional chinesa, de estruturação bastante recente, que iremos aplicar o conceito de Racionalidade Médica: a MTC.
A sigla “MTC” tem sido atualmente utilizada para designar especificamente uma versão de medicina tradicional chinesa criada na China pós-revolucionária e difundida para o mundo a partir de grandes centros de estudo e ensino como a Faculdade de Medicina Chinesa de Shanghai, e que enfatiza, como ferramenta de diagnose, o sistema dos “Oito Princípios”, que descreveremos mais à frente. Esse sistema, que procura localizar o adoecimento e, ao mesmo tempo, determinar sua natureza segundo o paradigma do Yin/yang , tem como principal competidor no mercado internacional de ensino e prática de acupuntura a escola dos “Cinco Elementos”, que tem como principal expoente no Ocidente a escola do prof. Jack Worsley, em Leamington Spa, na Inglaterra (Eckman, P. 1996). Outras formas de medicina tradicional chinesa, que enfatizam outros aspectos da cosmologia, diagnose e terapêutica são por vezes chamadas de “Medicina Clássica Chinesa”, “Medicina Tradicional Oriental”, ou “Medicina Tradicional do Leste Asiático”   Tais correntes de medicina tradicional chinesa freqüentemente denominam a si mesmas de “verdadeiramente tradicionais” e criticam a MTC como “reducionista” - crítica a qual, em nossa opinião, não é desprovida de mérito: como as doutrinas fundamentais que embasam as diversas formas de medicina chinesa surgiram por volta 2 a.C e refletem, até certo ponto, a visão de mundo de seu tempo, é inevitável que haja áreas de conflito com o pensamento oficial do atual governo chinês. Um exemplo é a que trata dos “espíritos” (shen) que habitam o homem, residindo em seus órgãos. Tais conceitos são hoje em dia vistos como “feudais” e representativos do "atraso", o que dá origem a uma revisão dessas doutrinas sob uma ótica marxista: fala-se atualmente em "dialética materialista primitiva do Yin/yang" (SIVIN, N. 1987), por exemplo. Recomendamos aos estudiosos e praticantes que levem em conta a existência dessa agenda política antes de tomarem a produção atual da China continental como referencial do que é verdadeiro em medicina chinesa. Por outro lado, essa revisão, ela mesma, pode ser vista como um movimento típico do processo de transformação do pensamento chinês. Cada nova dinastia trazia consigo novas moedas, padrões de pesos e medidas, de bitola de rodas de carroça etc, como se a história começasse com ela (mas ao mesmo tempo fundamentando sua legitimidade com releituras convenientes dos clássicos para ganhar o poder ratificador dos ancestrais).

Para a transliteração dos sons do dialeto mandarim, adotei o sistema Pinyin da China continental, sugerindo entre parênteses uma aproximação para leitores de língua portuguesa, por exemplo: taiji quan (t'hai dji t'chuan), exceto quando óbvio, como em yin/yang ou Wu (Uú) Xing. Os termos grafados em maiúsculas correspondem a conceitos que, na Racionalidade Médica Chinesa (RMC), possuem uma acepcção técnica bastante diversa de seu emprego em linguagem coloquial, como os nomes dos órgãos internos da RMC: Coração, Intestino Delgado, os seis fatores climáticos (Frio, Umidade) etc[ii].


AS SEIS DIMENSÕES DA RACIONALIDADE MÉDICA CHINESA
Dra Madel Luz
A categoria Racionalidade Médica foi criada pela profa. Dra Madel Luz em 1991 para estudar sistemas médicos complexos. É uma categoria idealtípica Weberiana que postula indutivamente que um sistema terapêutico complexo, para ser uma Racionalidade Médica, possui necessariamente seis dimensões: uma cosmologia, a própria tessitura cultural com suas imagens e representações de onde emanam e onde se ancoram as demais dimensões; uma morfologia, ou descrição do corpo humano; uma dinâmica vital, conjundo de explicações racionalmente elaboradas sobre o fenômeno da vida humana; uma doutrina médica em que causas, efeitos e definições do adoecer são explicados e repertorizados; uma diagnose desses padrões ou doenças e uma (ou várias, no caso da RMC) terapêutica (Luz, M. 1992).  Descrever essas seis dimensões da RMC é o propósito central deste texto.
Cosmologia da RMC
Muitos autores de RMC, quando querem validar suas idéias, se remetem à uma “tradição chinesa”. Ao fazerem isto estão sendo bem “sínicos”, partilhando do referencial chinês de buscar a validação no passado e na tradição ao invés de no avanço e na modernidade.  É uma estratégia, contudo, que cria a falsa impressão de que, de fato, existe uma tradição chinesa, o que não é o caso. O aluno que começa a estudar RMC partindo desse pressuposto se desespera quando chega aos clássicos, sempre citados para corroborar os textos mais recentes mas, muitas vezes, contendo também noções e conceitos aparentemente contraditórios com esses mesmos textos. Existe uma complexa teia de interações, com alguns momentos de afastamento, outros de aproximação, entre várias escolas e tradições que surgiram ao longo da história, ao invés de um grande consenso. É portanto de um conjunto fundamentalmente heterogêneo que foram selecionados os sete conceitos-chave que constituem a Cosmologia da RMC. São estes: Dao (Tao), Céu anterior e Céu Posterior, taiji, qi, yin/yang, wu xing e san cai (sen ts'hai). Estes sete conceitos e o resultado de suas interrelações nos parecem fornecer uma base conceitual suficientemente abrangente para ancorar todas as demais dimensões da RMC.
Dao
Dao é o conceito central do Taoísmo, uma corrente de pensamento chinês que se divide em duas grandes escolas: o daojia, chamado de “filosófico” e o taoísmo dito religioso, o daojiao (taodjiáo). O primeiro propõe a experiência mística da identificação direta com o Dao, enfatizando a meditação e a ação espontânea, não-premeditada, representada pela noção de Wu Wei, o “não-agir”. Seus maiores expoentes são Laozi, (Séc.V a.C.?) e Zhuangzi (369-286 a.C.). A segunda corrente, representada por diversas escolas, busca a ascenção espiritual que tem como ponto máximo a imortalidade e venera um vasto panteão organizado à maneira de uma repartição pública. Tem como principal cânone o Daozang, que em sua edição de 1118 contava com 5.481 volumes (Dictionnaire de la Sagesse Orientale, 1989).
O ideograma Dao é composto de duas partes: uma significando “cabeça”, e a outra, “pé”. Dao pode ser traduzido como “caminho”, “via”, que se segue conjugando ação (pé) e reflexão (cabeça). No taoísmo daojia, que tem forte influência na formação dos conceitos da RMC, o Dao "é" a origem não-dual do cosmo. Evidentemente, uma vez que precede a dualidade ser/não-ser, não se pode dizer que "seja" a origem disto ou daquilo. É portanto indescritível, posto que qualquer descrição supõe necessariamente a existência de uma dualidade observador/fenômeno. Segundo o Tao Te King (Daode Jing):
O Tao que pode ser pronunciado
não é o Tao eterno.
O nome que pode ser proferido
não é o Nome eterno.[iii]
O Dao é o Princípio primeiro de onde se originam espontaneamente todas as coisas e fenômenos do universo. Nesse sentido, é assemelhado a uma mulher, fonte da vida humana:
O Espírito do vale não morre nunca;
ele é a mulher misteriosa.
A porta da mulher misteriosa
é a raiz do Céu e da Terra.
Ininterrupta, assim como perpétua,
ela age sem esforço.[iv]
É assemelhado à vacuidade:
Trinta raios cercam o eixo
a utilidade do carro consiste no seu nada.
Escava-se a argila para modelar vasos:
a utilidade dos vasos está no seu nada.
Abrem-se portas e janelas para que haja um quarto:
a utilidade do quarto está no seu nada.[v]
Apesar de misterioso, profundo e inenarrável, o Dao pode ser experimentado diretamente pelo Homem. Para tanto, o taoísmo filosófico preconiza a realização pessoal da unidade com o Dao, que se obtém na simplicidade e, sobretudo, na prática da ação não-intencional, espontânea e livre de desejo de sucesso ou medo de fracasso representada pelo conceito de Wu Wei (Uú Uêi), a “não-ação”:
Ch'ui o projetista
Sabia desenhar círculos mais perfeitos a mão livre
Do que a compasso.
Seus dedos traziam
Formas espontâneas do nada. Enquanto isso, a mente
Mantinha-se livre e despreocupada,
Com o que estava fazendo
Nenhuma aplicação era necessária
Sua mente era inteiramente simples
E não conhecia obstáculos.[vi]
O conceito de Dao fundamenta a idéia chinesa de saúde, vista como uma “ordem vital”: Esta seria menos um “equilíbrio” do que um padrão ou uma configuração de processos interligados num constante fluxo que naturalmente muda de matiz para se adaptar as mutações naturais do Céu e da Terra. Este padrão cambiável da ordem vital mantêm a vida com bem-estar físico e temperança nas emoções e com a perspectiva de viver-se todos os anos possibilitados pela sua herança vital, sem decrepitude ou sofrimento.
A reflexão chinesa sobre o homem nunca é feita dentro de um referencial puramente subjetivo: o homem sempre está referenciado ao Céu e a Terra e também, com freqüência,  ao Estado. Assim, o Dao é também a via correta que os cidadãos e os governantes devem seguir para a prosperidade e ordem do reino (e, por extensão, para manter a saúde individual):
Vejo quão grande é tua virtude, e quão admiráveis tuas vastas realizações. A escolha específica do Céu recai sobre ti; eventualmente deves assumir o trono do grande soberano. A mente das gentes está inquieta e fadada ao fracasso, e seu desejo de seguir o dao é pequeno. (Shujing)[vii]
Se na morfologia da RMC veremos que o corpo é visto como um micro-estado, em que centros urbanos e grandes celeiros (os órgãos e vísceras) trocam suas riquezas e produção específica através de hidrovias (os Canais), é natural que haja um administrador desse Estado. Essa noção representa uma ruptura com as tradições anteriores, em que o bem-estar da comunidade bem como do indivíduo estava condicionado aos caprichos de entidades sobrenaturais. Agora, a própria pessoa passa a ser responsável pelo gerenciamento do Estado do seu ser. Esse gerenciamento tem sua eficácia ligada à idéia de seguir o Dao o que, na concepção confucionista da expressão, é feito através da observação da moderação na conduta e rejeição dos excessos.
Uma vez que este é indescritível e inenarrável, “seguir o Dao” equivale na prática a “seguir o yin/yang”, que é a forma pela qual o mistério do Dao se revela no mundo:
Seguir o yin/yang, eis a vida. Contrariá-los, eis a morte. Segui-los é a cura [é legislar], 
Contrariá-los é o caos (...)(Neijing)[viii]
O fato de a palavra zhi (dj^h) significar tanto “curar” quanto “legislar” [ix] e de que a expressão “caos”, utilizada para sublevações e perturbações no reino, seja utilizada para aludir à doença individual, ilustra mais uma vez como, no imaginário médico chinês, as idéias de cuidar da saúde e gerir o Estado estão imbricadas.
Céu Anterior e Céu Posterior
"Céu Anterior" é uma expressão encontrada primeiramente no Clássico das Mutações, o Yijing (I Ching). Um dos mais famosos livros de sabedoria chinesa, traduzido para virtualmente todos os idiomas, o Yijing representa o yin por uma linha descontínua e o yang por uma contínua, que se reúnem em oito grupos de três linhas (os trigramas básicos) de cuja combinação dois a dois resultam 64 hexagramas que, corretamente interpretados, apontam a natureza original e o desenvolvimento futuro de qualquer situação. Sua primeira compilação provavelmente data do período de transição entre as dinastias Shang e Zhou (circa XI a.C?).
No Yijing, Céu Anterior é o estado que precede o surgimento do universo manifesto, e Céu Posterior é o mundo das manifestações e dos fenômenos, referidos na tradição taoísta como "dez mil seres". O Homem vai procurar no Céu Anterior a origem das situações, no Céu Posterior,  encontrará seu desenlace. Note-se que quando falamos em "Céu Anterior" estamos construindo uma relação dual com "Céu Posterior" - um pressupõe o outro. Já a noção  de Dao não possui um oposto, já que não existe nada fora (ou dentro) dele.
Na RMC essas noções estão relacionadas às propriedades inatas e às propriedades adquiridas. No momento anterior à fecundação, temos o Céu Anterior representado pelas potencialidades de manifestação da nova vida, limitadas pelas características dos genitores (Rochat de la Vallée, E. et al. 1979). No momento da fecundação é dado o impulso organizador característico daquele ser, tanto em sua dimensão racial e genérica quanto individual. Esse impulso inicial estabelece um dos mais importantes aspectos da vitalidade humana na RMC: o qi original yuan qi (Iuén Tchi). Criado no momento da concepção, O qi original tem a incumbência de gerenciar as influências do Céu e da Terra, organizando a fisiologia vital de acordo com o que foi conformado na fusão das essências do pai e da mãe.
Taiji
Taiji pode ser traduzido como "Cumeeira Suprema", "Ápice Máximo" ou " Viga Mestra". É representado no taiji du (t'hai dji tú), o "Diagrama do Taiji", o símbolo dos dois peixes que atualmente consiste num dos objetos favoritos de predação do marketing, ao lado do Ohm indiano. O taiji é a linha que, naquele diagrama, ao mesmo tempo define, une e divide yin e yang, sem que se possa dizer que pertença a um ou a outro. O taiji caracteriza a natureza polar de nosso universo e estabelece que entre os pólos existe um movimento contínuo de emergência, crescimento, plenitude e decréscimo, numa alternância gradual e harmoniosa entre yin e yang. O taiji é a "mãe do yin/yang", que é a expressão do movimento fluido que caracteriza o Dao. Assim, o taiji é o eixo através do qual o Dao vai encontrar sua expressão tangível:
O Dao pare o Um
O Um pare o Dois
O Dois pare o Três
O Três pare as Dez Mil Coisas (Tao Te King)[x]
Ou seja: do Dao vem o taiji, o eixo supremo; o taiji supõe o dois (o yin/yang), o qual por sua vez gera o trinômio Céu (yang) / Homem (yin/yang) / Terra (yin). É da interação do Céu com a Terra, no plano intermediário, que surge a multiplicidade das coisas.
Qi
Literalmente, "os vapores que emanam do solo (ou da fermentação do arroz) em direção ao céu"[xi]. Muitos autores no Ocidente e no Oriente equivocadamente traduzem esse conceito por “energia”. Se tivéssemos que utilizar um termo em português para traduzir “qi” - algo talvez indesejável - me parece melhor a expressão "Sopro Vital", uma vez que, em mandarim, a palavra qi compõe palavras como ar (kongqi), gás (qiti), fragrância (xiangqi), traquéia (qiguan) e está ausente de conceitos ocidentais de energia como eletricidade (dianliu, dianneng), magnetismo (cixue), gravidade (diqiu yinli) e energia atômica (yuanzi neng). Seu  fluxo desloca a matéria (a agitação do qi do Fígado é chamado de "Vento Interno", e provoca  tremores  no corpo); em exercícios chineses como o taiji quan o qi pode ser levado a se condensar para enriquecer a medula óssea, num processo semelhante à condensação do vapor d’água; a RMC identifica a fraqueza da voz com insuficiência de qi; os qi gong (tchi cûn), treinamentos chineses do qi, geralmente têm na respiração um elemento fundamental.
Na Cosmologia da RMC, aspectos, polaridades ou modalidades do qi são o yin/yang e as Cinco Fases, que surgem da divisão do qi primordial:
"Quando o Céu e a Terra ainda estavam misturados, nada existia além do Um indiferenciado. Esse Um foi dividido; assim nasceram o yin e o yang. Aquilo que recebeu o yangqi ascendeu, claro e leve, e tornou-se o Céu. Aquilo que recebeu o yin qi se aprofundou, sombrio e pesado, e tornou-se a Terra. E aquilo que recebeu tanto o yin qi quanto o yang qi e se mostrou justo e equilibrado foi o Homem." (Baopuzi)[xii]
É o qi que mantém a vida; sua circulação é vista como essencial para a manutenção da saúde:
"O Homem está no qi e o qi está no Homem. O Céu, a Terra, os Dez Mil Seres, todos necessitam do qi para se manter vivos. O Homem que se dedica a fazer circular seu qi preserva sua pessoa e afasta de si todo o mal que poderia lhe ferir."(Baopuzi)[xiii]
Yin/yang
São os dois pólos que, ao se oporem, se complementarem e se definirem mutuamente pela ação do taiji, caracterizam a natureza cíclica e dual do universo. Toda e qualquer coisa ou evento pode ser concebida como um estado particular de yin/yang, sempre de forma relativa. Podemos fazer algumas associações ilustrativas:
Tabela 1
Yin
yang
implícito
curva
absorver
recolher
forma
norte
noite
escuro
frio
água
preto
inverno
baixo
ventre
feminilidade
“vísceras maciças” :zang
Sangue
explícito
reta
expelir
expandir
idéia
sul
dia
claro
quente
fogo
vermelho
verão
alto
dorso
masculinidade
“vísceras ocas”: fu
qi
 Se yin e yang se alternam, há harmonia e saúde. Se o círculo se imobiliza, levando ao predomínio exagerado de um sobre o outro, sobrevêm o caos, o adoecimento.
A interação de yin/yang gera as Cinco Fases wu xing.
Wu Xing
A teoria das Cinco Fases ou dos cinco movimentos, cuja formulação é atribuída a Cou Yen (Ts'hou Ién, 350-270 a.C.) postula que todos os fenômenos naturais correspondem a uma de cinco faixas associativas: Madeira, Fogo, Terra, Metal e Água.


Tabela 2

Madeira
Fogo
Terra
Metal
Água
Estação
primavera
verão
canícula[xiv]
outono
inverno
Ponto Cardeal
leste
sul
centro
oeste
norte
momento do dia
alvorada
meio-dia
tardinha
poente
meia-noite
sabor
ácido/
azedo
amargo
doce
picante
salgado
cor
verde-azulado
vermelho
amarelo
branco
preto
fator climático
vento
calor e fogo
umidade
secura
frio
tecidos
do homem
tendões
e unhas
tecido vascular
tecido conjuntivo e músculos
pele e pêlos
ossos, medula
e cérebro
órgão
dos sentidos
olhos
língua
boca
nariz
ouvidos
Zangfu
Fígado/ Vesícula
Coração/ Intestino Delgado e
"Príncipe do Coração"/ "Triplo Aquecedor"
Baço[xv] / Estômago
Pulmão/ Intestino Grosso
Rins/ Bexiga
Emoção
decisão/ irritação
alegria/
hiper-excitação
reflexão/ obsessão
rigor/ tristeza
prudência/ medo
 No tocante à posição da Terra no ciclo sazonal, os autores divergem: a MTC defende que a terra possui uma estação própria, a canícula ou Chang Xia (lit. "verão longo"), que se situaria ao final do verão. É a época de chuvas, momento em que o ciclo de plantio e colheita era definido, estando em jogo a própria sobrevivência das comunidades. Contudo, há uma corrente que se fundamenta no Neijing para afirmar que a terra não preside uma estação própria, recebendo ao final de cada estação 18 dias de comando (Eyssalet, J.M., 1988).
Essas Cinco Fases estabelecem uma série de relações ou ciclos entre si. Os principais ciclos naturais, que explicam os fenômenos vitais do corpo humano são os ciclos de geração (Sheng) e de restrição (Ke). O ciclo de geração postula que a Madeira alimenta o Fogo; o Fogo (através das cinzas) nutre a Terra; a Terra gera o Metal; o Metal, se liqüefazendo, gera a Água; a Água alimenta a Madeira. No ciclo de destruição, bem como nos ciclos doentios de encontramos a idéia de restringir: a Madeira fura a Terra (como as raízes); a Terra represa a Água; a Água apaga o Fogo; o Fogo derrete o Metal; o Metal corta a Madeira. Os ciclos desarmônicos de supradomínio e contradomínio estão ligados ao excesso de atividade de uma fase: no primeiro, o elemento restritor torna-se excessivo e passa a destruir em vez de apenas moderar. No segundo, a fase moderada (por exemplo, a madeira em relação ao metal) torna-se excessiva e passa a agredir seu moderador.
É sempre bom lembrar que estamos tratando da apresentação contemporânea da MTC. Historicamente, as escolas do yin/yang e das Cinco Fases se opunham. Quando da consolidação do confucionismo como doutrina social ortodoxa da China imperial, e a conseqüente elevação da escola das Cinco Fases à condição de medicina oficial, a escola do yin/yang acabou por "explicar" a existência de Cinco Fases - seja dividindo-se uma delas (o fogo) em duas - fogo príncipe e fogo-ministro - obtendo assim seis elementos, distribuindo três fases para o yin e três fases para o yang, seja atribuindo a neutralidade a uma delas - a Terra, considerada "central" -, distribuindo as quatro restantes entre yin e yang. (Unschuld, P.,  1985).
San Cai
Traduzido normalmente por "Três Poderes" ou "Três Instâncias", refere-se ao trinômio Céu-Homem-Terra. Como já vimos, o Céu forma-se pelo acúmulo de yang; a Terra, pelo acúmulo de yin. O Homem faz a ligação entre os dois, sempre buscando acompanhar as trocas de suas influências (Rochat de la Vallée, E. et al. 1979). Recebe do Céu o ar, a luz e as qualidades sutis ou “espíritos” (Shen[xvi]) que nele residem nos cinco zang; da Terra a substância, a essência vital e o sabor dos alimentos, que vão tecer o espaço material em que se passam as atividades vitais.
As demais categorizações (yin/yang e Cinco Fases), ao se superporem à noção de San Cai, vão possibilitar o estabelecimento de relações de correspondência entre essas três esferas: aquilo que no Céu é o Vento, o leste é a cor verde, na Terra é a Madeira e o sabor ácido, e no Homem é o Fígado, a visão, os tendões, a raiva, a iniciativa viril.
Em resumo...
O universo dual origina-se na vacuidade inescrutável, não-dual, que é o Dao. O Dao vai se valer do taiji para gerar a expressão tangível de sua natureza, o reino da dualidade, dividido entre yin e yang . O acúmulo de yang dá origem ao Céu. O Acúmulo de yin dá origem à Terra. Entre Céu e Terra caminha o Homem, harmonizando em si as influências dos Sopros Celestiais e Terrenos. O desdobramento de yin/yang gera as Cinco Fases, que compõem e caracterizam todas as coisas e movimentos - os Dez Mil Seres. A normalidade (prevenção ou cura) se consegue harmonizando a dinâmica do Homem com as dinâmicas do Céu e da Terra, pressupondo uma ordem vital em constante movimento, nunca “equi-librada”.
A Morfologia da RMC
A morfologia da RMC difere da ocidental principalmente na medida em que descreve um corpo tecido e também percorrido pelo qi. Neste corpo há centros de produção e locais de armazenamento do qi, portas de comunicação com o(s) qi do meio externo e uma série de estruturas de transporte e regulagem do fluxo do qi no corpo, dando a idéia geral de um estado cujas províncias transportam sua produção de capital para capital através de hidrovias. Ademais, o qi é uma instância de regulagem dos tecidos corpóreos, tendo uma posição de regência sobre estes. Assim, por exemplo, num caso de torcicolo, ao invés de massagear o pescoço, o terapeuta pode preferir estimular com o toque, moxa ou agulhas, certas Cavidades (entidade morfológica que definiremos mais à frente) no pulso ou no tornozelo que influem nos Canais que passam pelo pescoço, muitas vezes obtendo resultados imediatos e surpreendentes para quem está habituado ao referencial anatômico/localista.
Zangfu
Os zangfu são os grandes centros que sediam os espíritos, armazenam as essências e produzem o qi no corpo humano. Cada um tem um papel na dinâmica vital, o que veremos mais à frente. Partilham de algumas características com os órgãos internos tal como são descritos na biomedicina, mas não lhes são idênticos, possuindo também associações com as emoções, os ciclos sazonais etc. O repertório de funções que se atribui à esses órgãos será esclarecido ao falarmos da dinâmica vital da RMC.
Existem doze zangfu, distribuídos igualmente entre yin e yang, formando seis pares. Cada um desses pares Zang-Fu encontra-se ainda relacionado a uma das Cinco Fases. Podemos considerar os zangfu como sendo a expressão, na instância Homem, daquilo que no Céu são as cinco direções e os cinco Shen (palavra que corresponde imperfeitamente às idéias de “espíritos” ou “almas” da nossa cultura) e na Terra as Cinco Fases e os Cinco Sabores (Eyssalet, J-M., 1988).  
Os zang (Coração, Baço, Pulmão, Rins e Fígado) estão na origem mesma dos tecidos corpóreos. Eyssalet cita a história de Zhao Chengzi, mestre taoísta que, selando os orifícios dos cinco zang, morre. Entretanto, as Cinco Vísceras permaneceram vivas, uma vez que seu sopro não pôde sair pelos orifícios tapados pelas práticas de imortalidade do mestre, e terminam por reconstituir seu corpo, devolvendo-lhe a existência (Eyssalet, J-M., 1988, pp 214-215). Esta história demonstra o papel privilegiado que ocupam os zang na morfologia humana na RMC. Eles são considerados os originadores dos tecidos, dos orifícios (ou seja, do contato com o mundo exterior) e dos próprios Fu:
"[Os sopros] ao se expandirem, elaboram os tecidos e funções necessárias à comunicação e à expansão (tecidos dos membros); ao se condensarem, reúnem os tecidos e funções indispensáveis à coesão (vísceras ocas, Canais, Três Aquecedores) ao circularem, liberam as vias da percepção e da consciência (cinco sentidos - nove orifícios)." (Eyssalet, J-M., op.cit, pg. 214)
Tendo o corpo do Homem sua origem na movimentação do qi Vital dos zang, é natural que as explicações para as perturbações nos tecidos corpóreos sejam buscadas nos próprios órgãos. Por exemplo: problemas ósseos pedem uma investigação dos Rins; problemas nos tendões, do Fígado, e daí por diante, de acordo com a Tabela 2.
Representações dos zangfu
A  partir do séc. XIX, começam a surgir desenhos representativos dos zangfu, descrevendo sua forma, localização, volume e peso. Tais desenhos, apresentando ainda certo grau de discrepância entre si, surgiram a partir da introdução na China de noções médicas ocidentais por missionários protestantes, inicialmente com Morrison e Livingston, em 1820, e principalmente com a publicação em língua chinesa de quatro volumes sobre anatomia, em 1851, por Hobson e Mao Cai[xvii]. O advento dessas representações, contudo, não alterou a clínica da medicina tradicional chinesa significativamente.
Do ponto de vista morfológico, dentre os zangfu dois casos merecem mais atenção por não possuírem uma imediata correspondência com os órgãos da Racionalidade Biomédica. São eles o Príncipe do Coração e o Triplo Aquecedor:
Xin zhu, xin bao ou xin bao lo "Príncipe do Coração"
Esse órgão é associado ao yin e ao Fogo. No Ocidente, é costumeiro encontrar as traduções "Pericárdio" , "Mestre do Coração", "Invólucro do Coração" e "Circulação-sexualidade" para seus nomes chineses. É um caso em que as deficiências e confusões advindas da tendência ocidental a isolar a(s) medicina(s) de seu contexto cultural se tornam mais evidentes. Xin zhu significa, literalmente "Coração/príncipe", recebendo a tradução de "Mestre do Coração". Ora, em toda parte é dito que o Coração é o principal centro do organismo, a morada do Espírito, e que todas as outras vísceras são subordinadas a ele. Como explicar, então, um "Mestre do Coração"? Ocorre que o papel do soberano na cultura chinesa não era o papel de um rei ocidental: é a virtude De (Tê) do soberano, resultado de sua retidão interior, que se espalha sobre o reino trazendo a ordem e a prosperidade. Ele age sem interferir diretamente no andamento das coisas - sua virtude é personalizada e transposta em ações por seus ministros (de fato, o imperador não podia sequer ser visto pela plebe: permanecia oculto na Cidade Proibida). Xin zhu pode ser traduzido como "aquele através do qual o Coração comanda", sendo quem recebe seu mandato. Eis por que o Xin zhu está associado ao "Fogo Ministro" xiang huo e o Coração ao "Fogo Soberano" jun (djún) huo (Rochat de la Vallèe et al., 1979).
Xin Bao é, literalmente, "saco [que envolve o] Coração". Autores ligados à medicina científica contemporânea de pronto localizam o Xin Bao no pericárdio. Entretanto, a primeira associação do Xin Bao às "gorduras amarelas que recobrem  o Coração" é datada de 1575[xviii], sendo portanto "recentíssima". Clássicos como o Nanjing[xix] apontam para a não-existência de um correspondente morfológico concreto para o Xin Zhu e para o San Jiao ("Triplo Aquecedor", que veremos à frente). o Lo em Xin Bao Lo significa "fio de seda que segue seu caminho", ou "rede", sendo também um dos tipos de Canal, como vimos. Segundo Rochat de la Vallèe et al., esse ideograma também "designa um certo tipo de relação, que é o de serviço a um meridiano,  uma região do corpo, uma víscera..."[xx], o que parece confirmar que Xin Zhu, que traduziremos como "Príncipe do Coração" é "aquele que está a serviço do Coração" e o "Canal que transmite sua virtude pelo corpo".
San Jiao "Triplo Aquecedor"
É uma das vísceras mais controvertidas da RMC, havendo grande divergência entre os autores. Os textos antigos são, do ponto de vista ocidental, vagos a respeito da morfologia dessa víscera. Existe porém consenso quanto ao seu papel na fisiologia do homem, o que do ponto de vista da RMC é o principal. Literalmente, a expressão sgnifica "três/chamuscar", sendo jiao composto de "fogo", sobre o qual se encontra "pássaro de cauda curta, galinha" (Wilder & Ingram, 1974) o que dá a idéia de chamuscar como quando do preparo de um pássaro depenado. No ensino da RMC, existe o consenso de que o Triplo Aquecedor é uma víscera Fu (yang) associada ao Fogo Ministro xiang huo, fazendo par com o Príncipe do Coração; a ele se encontra associado o Canal Principal yang intermediário da mão. É dividido em aquecedor superior, englobando o Coração e o Pulmão; médio, englobando o Baço, Estômago, Fígado, Vesícula e Intestino Delgado; e inferior reunindo os Rins, Bexiga e Intestino Grosso. Não possui um substrato morfológico próprio.
Canais de Circulação
O qi vital dos zangfu percorre um caminho claramente definido. São linhas vetoriais sem  estrutura anatômica verificável - não “basta abrir-se alguns cadáveres” para encontrar evidências sobre a dinâmica do qi, que é típica da vida. Esses caminhos são chamados "Canais Principais", totalizando doze (um para cada Órgão). Existem ainda outros tipos de Canal: os "Canais Maravilhosos", "Distintos", "Lo" e "Tendinomusculares".
Os "Principais", expressão direta do qi dos órgãos, se agrupam em "pares acoplados". Um "par acoplado" é formado por dois Canais pertencentes à mesma fase, associados um ao yin e outro ao yang, situados sempre em um mesmo membro.  Por exemplo: à fase terra pertencem o Baço (seu aspecto yin) e o Estômago (aspecto yang). Os dois formam portanto um par acoplado, o Canal do Estômago sendo yang nascendo no alto e descendo pela perna até o pé e o do Baço, sendo yin, surgindo no pé e subindo perna acima em direção ao Céu. O movimento do qi nesses Canais age como vetorizador do Sangue, cuja circulação também se dá nos Canais Principais, em proporções variadas: nos Canais Principais da Bexiga, do Intestino Delgado, do Fígado e do Mestre do Coração há mais Sangue que qi; nos Canais da Vesícula, Triplo Aquecedor, Rins, Coração, Pulmão e Baço-Pâncreas, há mais qi do que Sangue; e nos Canais do Estômago e do Intestino Grosso, Sangue e qi estão presentes na mesma proporção.
Os Canais "têndino-musculares" consistem em faixas largas, por vezes se superpondo, estando associados à proteção dos tecidos, ao equilíbrio e movimentação do corpo e à veiculação do wei qi (o “qi defensivo”). Estão sempre ligados à um Canal Principal, começando sempre no ponto mais distal destes (a cavidade jing).
Os "Maravilhosos" são em número de oito, sempre terminando em um dos "Principais" de natureza yang. Partilham entre si da característica de movimento ascendente, exceto pelo dai mai, que é como uma faixa em torno da cintura. São vistos como grandes lagos ou reservatórios, que acumulam o qi dos doze Canais quando o excesso o leva a extravasar. Estão intimamente associados à origem da vida, tendo o papel de guardar o qi ancestral ou original (yuan qi).  Veiculam e armazenam o Jing (essência), harmonizando sua circulação com a do qi nutridor (Maciocia, G. 1989)
Os "Lo" se dividem em dois grupos, um de dezesseis e um de doze: doze "Lo transversais" e dezesseis "Lo longitudinais". O primeiro grupo forma pontes entre os integrantes de um "par acoplado". Agem como comportas reguladoras quando há diferença de intensidade de fluxo entre os Canais acoplados, transferindo o qi do Canal em excesso para o dificiente; o segundo grupo acompanha em parte apenas o trajeto dos "Principais", estabelecendo conexões internas entre os canais e órgãos que explicam muitas das funções reguladores das Cavidades. Além dos doze Lo longitudinais relacionados aos doze órgãos, existem ainda 4 Lo extras: um para o vaso governador, um para o vaso diretor, um chamado de “grande Lo do Baço-Pâncreas” e o último, pouco referido em literatura ocidental mas descrito no Su Wen cap. 18, chamado de “Lo do Estômago” (Xu Li) (Rochat de la Vallèe et al., 1979).
Os "Distintos" nascem nas grandes articulações, acompanhando os "Principais" conectando-se aos órgãos sem penetrá-los.
Toda essa rede de canais tem por principal função a plena irrigação de todos os territórios do corpo pela vitalidade, unificando o ser e disponibilizando recursos para transferência de vitalidade – seja de que tipo for – quando necessário (excesso, vacuidade, ataques do qi perverso etc).
Canais Principais e Intensidade de yin/yang
Existe uma subdivisão do yin/yang em três partes  - superficial, médio e profundo - que explica a distribuição topológica, nos membros, dos Canais Principais. Os pertencentes ao yang são tanto mais intensos quanto mais externos (em relação à posição anatômica chinesa, com os dois braços para cima e palmas para a frente); nos yin é a profundidade que indica maior intensidade. Os pares acoplados sempre pertencem ao mesmo nível de intensidade. Por exemplo, no acoplamento do Coração ao Intestino Delgado (yin e yang da fase fogo príncipe), o Coração é o zang pertencente ao nível yin mais profundo (portanto mais intensamente yin) e o Intestino Delgado, o Fu associado ao yang mais externalizado (portanto mais intensamente yang), mantendo a proporção de intensidade de yin e yang no par:

Intensidade

Mão
ya
Tai Yang
Intestino Delgado
Bexiga
n
Shao Yang
Triplo Aquecedor
Vesícula
g
Yang Ming
Intestino Grosso
Estômago
y
Tai Yin
Pulmão
Baço
i
n
Jue Yin
Príncipe do Coração
Fígado

Shao Yin
Coração
Rins


Quadro VOLUME ENERGÉTICO - Autor: Profº Ricardo André
Essa classificação também implica na associação dos Canais de mesma intensidade e mesma polaridade, criando um grupo de seis “grandes Canais” ou “níveis”, o que origina mais uma possibilidade de classificação do adoecimento: síndromes do Tai Yang, síndromes do Shao Yin  etc, que envolvem menos os órgãos que os Canais propriamente ditos. Por exemplo, um caso de calor no Canal Shou Tai Yang (Intestino Delgado) pode resultar em ardência urinária (afetando a Bexiga, Zu Tai Yang), havento transmissão do calor pela rede de Canais dentre do mesmo nível.
Continua: aguarde a II parte de 3 

[1] Professor de T’ai Chi Ch’uan, Técnico em Shiatsuterapia, coordenou a equipe de medicina tradicional chinesa do Projeto Racionalidades Médicas do Instituto de Medicina Social (IMS) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), entre 1993/1997.
[2] Uma primeira versão de parte deste texto foi publicado sob o no. 72 da Série Estudos em Saúde Coletiva, IMS/UERJ.
[3] Lao Tzu, Tao-te King, o Livro do Sentido e da Vida. Ed. Pensamento, São Paulo, p.37.
[4]  Idem, pag.42.
[5] Ibid. pag.47.
[6] Merton, Thomas: A Via de Chuang Tzu, Ed.Vozes, Petrópolis, 1965, p.146.
[7] Shujing, parte II, livro 2, cap.2. in: Palmer, Martin: The Elements of Taoism, Element, Dorset, 1991.
[8] Huangdi Neijing So Wen, cap.2, in: Unschuld, Paul: Introductory Readings in Classical Chinese Medicine, Kluwer Academic, Londres, 1988, pag.11. Tradução nossa. 
[9] Lamentavelmente, perdeu-se a etimologia deste ideograma. Akahori Akira, contudo, acredita que seja um erro de transcrição da palavra ye, muito semelhante, que significa “derreter metal”, que aparece freqëntemente nas receitas médicas da dinastia Han. Aparentemente a palavra significava “pulverizar em pó fino” os ingredientes provavelmente com um martelinho de metal. Como no final dos Han Posteriores essa prática caiu em desuso, sendo substituída pelo uso de peneiras finas, um erro de copista não foi corrigido porque ninguém sabia mais o sentido do outro ideograma.
[10] Tse, Lao: Tao Te King, o livro do sentido e da vida. Hemus, S/D, São Paulo, pag.102.
[11] Wilder, G.D e Ingram, J.H Analysis of Chinese Characters, Dover, Nova York, 1974, pag.18.
[12] Ko Hung, Baopuzi (séc III-IV d.C), in: Dictionnaire de la Sagesse Orientale, Robert Laffont, Paris 1989, pag.109.
[13] Ko Hung, op.cit., p.109.
[14] Neste ponto, os autores divergem: uma corrente defende que a terra possui uma estação própria, a canícula ou Chang Xia (lit. "verão longo"), que se situaria ao final do verão. É a época de chuvas, momento em que o ciclo de plantio e colheita era definido, estando em jogo a própria sobrevivência das comunidades.  Outros autores, como Eyssalet, baseiam-se no Neijing para afirmar que a terra não preside uma estação própria, recebendo ao final de cada estação 18 dias de comando.
[15] Subentenda-se "Baço - Pâncreas", que em MTC compõem um Zangfu único.
[16] "Espíritos" (?), às vezes traduzidos como "mônadas", "almas vegetativas" ou "Entidades Viscerais". Representam aspectos do psiquismo, estando relacionados aos sonhos, à memória, à vontade, ao instinto e à cognição.
[17] Unschuld, 1985, pag.235-6.
[18] Li Chan, Yi Xue Ru Men (introdução ao estudo da medicina), 1575, citado em Sivin, N. 1987 pag.128.
[19] Nan Jing, "Clássico das Dificuldades", possivelmente compilado pouco depois do Neijing (Huangdi Neijing Lingshu Suwen). Esse clássico é apontado por Unschuld como sendo "O" clássico da Medicina de Correspondência Sistemática (do yin/yang e das Cinco Fases), por introduzir novos conceitos na fisiologia dessa medicina e por ter superado contradições presentes na compilação do Neijing, que incluiria traços de medicinas anteriores.
[20] Rochat de la Vallée et al., 1979, pg.140.