27 de abr. de 2016

¨APRESENTADO O TAO TE CHING¨ 22; 23; 24 e 25

Poema 22 do Tao Te Ching
曲則全
枉則直
窪則盈
弊則新
少則得
多則惑
是以聖人抱一
為天下式
不自見故明
不自是故彰
不自伐故有功
不自矜故長
夫唯不爭
故天下莫能與之爭
古之所謂曲則全者
豈虛言哉
誠全而歸之

Dobrando-se, está inteiro;
Curvando-se, está reto;
Sendo oco, está cheio;
Sendo gasto, está novo;
Sendo pouco, é ganho;
Sendo muito, é perda.
Por isso, o sábio abraça o Um,
Tornando-se modelo para o mundo.
Não se exibe, por isso ilumina;
Não se mostra, por isso se destaca;
Não se empenha, por isso tem sucesso;
Não se enaltece, por isso dura mais tempo.
Como não luta,
Não há ninguém no mundo que lute contra ele.
O que os antigos diziam: "Dobrando-se, está inteiro"
Não teria valor?
Verdadeiramente, tudo se integra assim.
Os pares de opostos se correlacionam com os aspectos exterior-interior. Uma injustiça pode assolar externamente o sábio, mas sua retidão interna se mantém.
Abraçar o Um é unir-se ao Tao.
Não se mostrar permite o sucesso interior.
Não lutando, não há como alguém lutar contra ele - esse é o nível máximo do Tai Chi Chuan.
Nessa busca interior encontramos nossa comunhão com tudo que existe.


Poema 23 do Tao Te Ching

希言自然
故飄風不終朝
驟雨不終日
孰為此者
天地
天地尚不能久
而況於人乎
故從事而道者
同於道
德者
同於德
失者
同於失
同於道者
道亦得之
同於德者
德亦得之
同於失者
道亦失之

Falar pouco é natural.
Assim como uma ventania não dura a manhã inteira.
E um temporal não dura o dia inteiro.
De onde vem isso?
Do Céu e da Terra.
O Céu e a Terra, tão antigos, não são eternos.
Não é assim com o homem também?
Aquele que se conduz de acordo com o Tao,
Une-se ao Tao.
Aquele de acordo com o Poder,
Une-se ao Poder.
Aquele que perde,
Une-se à perda.
Quem se une ao Tao
É alcançado pelo Tao.
Quem se une ao Poder do Tao
É alcançado pelo Poder do Tao.
Quem se une à perda
É perdido pelo Tao.

A época de Lao Tzu foi um tempo de grandes e bruscas transformações. Os estados independentes formavam tênues e efêmeras alianças para dominar estados rivais. O inimigo de ontem poderia ser o aliado de amanhã. Centenas de escolas filosóficas se desenvolviam, interagiam e eram incorporadas a correntes de pensamento mais vigorosas. Nesse vai-e-vem incessante, Lao Tzu encontra algo imutável.
Um furacão não dura um dia inteiro. Uma pessoa não passa 24 horas por dia falando. Tudo está em constante mudança. Mas há algo atemporal, supramaterial - o Tao. Pelo Poder ele é reconhecido e encontrado. Perdê-lo é ater-se à trajetória comum das coisas ordinárias, sendo arrastado para lá e para cá nos processos de degradação mundana.


Poema 24 do Tao Te Ching
企者不立
跨者不行
自見者不明
自是者不彰
自伐者無功
自矜者不長
其在道也曰
餘食贅行
物或惡之
故有道者不處

Quem se põe nas pontas dos pés não se firma;
Quem afasta muito as pernas não caminha;
Quem se exibe não ilumina;
Quem se mostra não se destaca;
Quem se empenha não tem sucesso;
Quem se enaltece não dura muito.
Quem está com o Tao diz:
"Restos de comida, excrescência supérflua".
Os seres sentem repugnância.
Quem tem o Tao não fica aí.

Esse poema continua a temática do 22. E, de fato, em manuscritos antigos aparece antes do 23.
O excesso, o supérfluo, a necessidade de superar os demais, coisas tão onipresentes hoje em dia, são obstáculos para a obtenção do Tao. É como oferecer comida para quem comeu até se fartar - dá náuseas. Não é essa a atitude de quem está no Tao.


Poema 25 do Tao Te Ching
有物混成
先天地生
寂兮寥兮
獨立不改
周行而不殆
可以為天下母
吾不知其名
字之曰道
強為之名曰大
大曰逝
逝曰遠
遠曰反

故道大天大地大王亦大
域中有四大
而王居其一焉

人法地
地法天
天法道
道法自然

Existe uma coisa indistintamente formada,
Anterior ao Céu e à Terra.
Intangível! Silenciosa!
Incondicionada e imutável.
Circula sem causar dano.
Pode ser considerada a mãe do mundo.
Não sei o seu nome;
Chamo-a de Tao.
Obrigando-me a considerá-la, denomino-a "Grande".
Sendo Grande, denomino-a "Aquela que orbita".
Sendo A que orbita, denomino-a "Distante".
Sendo Distante, denomino-a "Aquela que retorna".

O Tao é grande, o Céu é grande, a Terra é grande, o Rei é grande.
Existem esses quatro grandes,
E o Rei é um dentre eles.

O Homem é regido pela Terra
A Terra é regida pelo Céu.
O Céu é regido pelo Tao.
O Tao é regido pela própria natureza.

Existe algo que é anterior ao Céu e à Terra. Por falta de nome melhor, Lao Tzu denominou essa coisa de Tao. Os verbos que ele utiliza - "circular", "orbitar", são os termos utilizados na astronomia, já razoavelmente avançada na época. Indicam a presença do Tao em todo o Universo, e não apenas no nosso mundo.

Os Grandes poderes são o Tao, o Céu, a Terra, o Rei. O caractere para "Rei" 王 mostra aquele que liga os três níveis: Céu, Homem e Terra. Ou seja, a esfera espiritual, a esfera social e a esfera material. Todas estas instâncias são regidas, em última análise, pelo Tao, que rege a si mesmo, pela sua própria natureza.

6 de mar. de 2016

Adorável BADUANJIN de Escritório

Baduanjin (八段锦) (ou "pa tuan chin") pode ser traduzido literalmente do chinês como "Oito peças de brocado", o nome designa sequências de oito exercícios de Qigong utilizadas pela medicina tradicional chinesa como forma de manter ou recuperar a saúde e como um treino básico por diversos estilos de artes marciais chinesas.[1] Há uma sequência de movimentos para ser praticada de pé e outra para ser praticada sentado.[2]

A referência às "Oito peças de brocado" por vezes é explicada como uma associação entre a beleza e perfeição dos tecidos deseda e tapeçarias com a riqueza e satisfação originadas na boa saúde. É uma das formas de Chi Kung mais utilizadas como exercício.[3]

Histórico da prática do baduanjin
Há diversas histórias sobre sua origem, atribuindo sua criação à tradições do sul e do norte da China. A mais conhecida o vincula ao famoso General Yue Fei (岳飛), que teria desenvolvido estas séries de exercícios como forma de manter a saúde de seus comandados[4] [5] Assim esta prática teria sido criada no período da dinastia Song do Sul, entre 1127 e 1279 A.D..[1]

Outros autores, como Catherine Despeux, atribuem sua criação a Zhong Li (Chung-li Ch'üan), da dinastia Tang (618-907).

O texto da dinastia Wei (魏) "灵剑子引导子午记" se refere a um exercício de ginástica que corresponde a um dos que constituem o Baduanjin, mas a antiga referência a este nome registrada ocorre no Yi Jian Zhi (夷坚志), um texto da época da dinastia Song.

No Dao Shu, Zhong Miao Pian (道枢•众妙篇) há diversas descrições sobre o método de alongamento destes exercícios. Este título se refere ao fato que a sequência do Baduanjin se divide em oito técnicas, e que cada uma delas corresponde a uma frase que descreve o movimento e seus efeitos.

Cada técnica deve ser repetida diversas vezes, geralmente se recomenda oito repetições de cada movimento. A respiração acompanha a movimentação de modo natural. A língua é suspensa em direção ao palato, sem esforço, durante a realização da sequência.

Historicamente, a prática é realizada tanto dentro da tradição taoísta quanto na budista shaolin.

Após a revolução comunista chinesa foi um dos primeiros conjuntos de exercícios tradicionais chineses a ser reabilitado na década de 1950, despojado dos conceitos taoístas, tornou-se muito popular em toda a China, sendo inclusive praticado por Mao Zedong e Zhou Enlai.

Uma variação do baduanjin com 12 movimentos, conhecida como "Exercícios para a Saúde dos 12 Órgãos Internos", integra as práticas de Tai Chi Pai Lin oferecidas à população pela Secretária Municipal de Saúde de São Paulo.[6]

Atualmente estão sendo realizadas diversas pesquisas sobre os benefícios físicos e psicológicos que sua prática pode trazer para a saúde, como sua contribuição como prática complementar na prevenção da osteoporose [7] e no tratamento da depressão em idosos com doenças crônicas.[8]


Vamos exercitar adorável baduanjin no escritório. Trabalhamos muito tempo sem parar, não esqueça de relaxar e fazer um pouco de exercício. Compartilhe com a família.

Primeira forma: Duas mãos sustentam o céu e regulam o triplo aquecedor.
Segunda forma: Estender o arco para flechar o abutre (esquerda e direita)

Terceira forma: Regular Baço e Estomago, estendendo-se de alto a baixo
Quarta forma: Olhar girando para trás para tratar as "cinco agressões e sete lesões"
Obs: Cinco agressões e sete lesões = O clássico de medicina do Imperador Amarelo
classifica todos os adoecimentos nessas categorias.
Quinta forma: Balançar a cabeça e agitar a cauda para expelir o fogo do Coração
Sexta forma: Conectar mãos e pés para afirmar o rim e a cintura/lombar.

Sétima forma: Desferir socos com olhar zangado para aumentar o Qi e vigor.
Oitava forma: Ao longo das costas sete cucurutos para tratar cem doenças.

25 de fev. de 2016

¨APRESENTADO O TAO TE CHING¨ 18; 19; 20 e 21

Poema 18 do Tao Te Ching

大道廢
有仁義
智慧出
有大偽
六親不和
有孝慈
國家昏亂
有忠臣

Quando o grande Tao é abandonado,
Aparecem a benevolência e a justiça.
Quando surge a sabedoria,
Aparece a hipocrisia.
Quando os Seis Relacionamentos não são harmônicos,
Aparecem o amor filial e a compaixão.
Quando a pátria está em confusão,
Aparecem os servidores leais.


Quando um conceito é formado, significa que ele passou a ser uma necessidade. Segundo Lao Tzu, na longínqua antiguidade todos viviam de acordo com o grande Tao. Tudo era espontaneamente correto. Quando se perdeu o grande Tao, e as coisas passaram a não dar certo naturalmente, foram criados conceitos para suprir essa falta, o que o taoísmo considera artificialismo: benevolência, justiça, amor filial, compaixão, sabedoria e lealdade - virtudes capitais para o confucionismo.
Os "Seis Relacionamentos" são três pares de relações mútuas: pais-filhos, irmãos mais velhos-irmãos mais novos, marido esposa.
Como volta e meia aparecem críticas do taoísmo ao modelo confucionista, a mente ocidental tende a colocá-los em campos opostos. No entanto, como certo estudioso já se expressou:
"Tradicionalmente, todo chinês era confucionista na ética e na vida pública, taoísta na vida privada e em questões de higiene, e budista na hora da morte, com uma saudável pitada de xamanismo popular lançada ao longo da jornada”

Quando os Seis Relacionamentos não são harmônicos, aparecem o amor filial e a compaixão.

Os pais devem criar e educar os filhos.
Os filhos devem obedecer ao pais e ampará-los na velhice.
Os irmãos mais velhos devem orientar os mais novos.
Os irmãos mais novos devem seguir os mais velhos.
O marido deve amar e proteger a esposa.
A esposa deve amar e servir o marido.

O fato de estar explícito o comando nessas frases, através do verbo "dever", indica que esses comportamentos não são mais naturais (ou seja, de acordo com o Tao), e precisam de uma regulação externa.

Quando a pátria está em confusão, aparecem os servidores leais.

Quando está tudo bem na pátria, ninguém sabe nem quem é o governante.
Quando surge a confusão, os movimentos políticos palacianos são mais evidentes, o governante precisa de auxílio e de apoio, aí aparecem os ministros leais.
A figura do ministro (ou outro servidor) leal é louvada em outras escolas, como a confucionista e a moísta, mas para o taoísmo, é um sintoma de um problema no governo


Poema 19 do Tao Te Ching

絕聖棄智
民利百倍
絕仁棄義
民復孝慈
絕巧棄利
盜賊無有
此三者以為文不足
故令有所屬
見素抱樸
少私寡欲

Eliminando a sabedoria e descartando a inteligência,
O povo se beneficia cem vezes mais.
Eliminando a benevolência e descartando a justiça,
O povo retorna ao amor filial e à compaixão.
Eliminando as técnicas e descartando o ganho,
Acabam-se os ladrões e os bandidos.
Essas três recomendações não bastam;
É necessário mais outra sobre o que incluir:
Aparência modesta, com simplicidade no interior;
Reduzir o egoísmo e diminuir os desejos.


Lao Tzu apresenta, nesse capítulo, quatro conjuntos de recomendações ao governante:
- eliminar a sabedoria e descartar a inteligência;
- eliminar a benevolência e descartar a justiça;
- eliminar as técnicas e descartar o ganho;
- manter um exterior modesto e uma simplicidade interior, diminuir o egoísmo e os desejos.

O último conjunto de recomendações, que é mais facilmente compreendido, é um sumário dos outros três. Ele apresenta de maneira positiva (o que começar a fazer) aquilo que os outros três apresentam de maneira negativa (o que deixar de fazer).

Instituições exteriores inventadas pelo homem devem dar lugar a elementos da constituição interna orgânica da natureza.

Sabedoria/Inteligência - conhecimentos acumulados, que apenas nos enchem e não nos fazem felizes.

Benevolência/justiça - a ação caridosa que deve ser cultivada para que alguém seja reconhecido como "justo".

Técnicas/ganho - as invenções e a tecnologia são logo apropriadas por alguns poucos para gerar lucro a partir da exploração de muitos.

Para Lao Tzu, o aperfeiçoamento do homem e da sociedade não é feito pelo acúmulo de qualidades e ações deliberadas, mas pelo puro esvaziamento de todas as artificialidades. Ele prega uma "desregulamentação" das virtudes, para que a grande Virtude, que é o poder expresso do Tao possa, simplesmente, acontecer. Daí o nome do livro: "Clássico do Tao e seu Poder (Te). TAO e TE são os grandes temas aí.


Poema 20 do Tao Te Ching

絕學無憂,
唯之與阿,
相去幾何?
善之與惡,
相去若何?
人之所畏,
不可不畏。

荒兮其未央哉!
衆人熙熙,
如享太牢,
如春登臺。

我獨怕兮其未兆;
如嬰兒之未孩;
儽儽兮若無所歸。
衆人皆有餘,
而我獨若遺。
我愚人之心也哉!
沌沌兮,
俗人昭昭,
我獨若昏。
俗人察察,
我獨悶悶。
澹兮其若海,
飂兮若無止,
衆人皆有以,
而我獨頑似鄙。
我獨異於人,
而貴食母。

Eliminando a erudição, acabam-se as preocupações.
Entre "Um-hum!" e "Oh!",
Quanta diferença há?
Entre o belo e o feio,
Que diferença há?
O que os homens temem
É impossível não temer.

Oh, que imensa aridez!
O povão fica radiante,
Como quem desfruta de um grande banquete,
Como quem passeia pelos terraços de primavera.

Eu, por outro lado, não manifesto um sinal de preocupação.
Como um bebê que ainda não sorri,
Como se, exausto, não tivesse para onde retornar.
O povão vive pela fartura,
Enquanto eu não me importo com nada.
Minha mente é de um estúpido!
Alheio a tudo.
As pessoas comuns querem o brilho,
Mas eu sou nebuloso.
As pessoas comuns investigam a fundo,
Eu, por outro lado, fico em minha perplexidade.
Cheio de marolas, como o mar!
Inquieto, como o vento agitado!
As pessoas comuns tem os meios e fins precisos,
Eu sou rude e desprezível.
Eu sou diferente dos outros,
Dou valor à mãe que alimenta.


Lao Tzu continua sua crítica ferrenha contra a figura do sábio que é cheio de conhecimento.

Isso pode nos causar estranhamento, pois cultivamos um "sábio chinês" na nossa imaginação. Talvez um velhinho frágil, de vetusta barba, em atitude circunspecta, ouvindo nossas angústias, pontuando nossa fala com um eventual "Um-hum" de concordância ou um "Oh!" de admiração. Lao Tzu simplesmente aniquila essa fantasia.
Discussões teóricas sobre a beleza e a feiúra levam a delimitações conceituais artificiais.
Disso nada se conclui para o bom proveito da vida. O que os homens temem, continuam a temer.
O discurso desses sábios é de uma aridez sem fim, mas cativa o povão, que se deleita ao ouvir.
Lao Tzu não se importa com nada disso. Mantém sua inocência e não se perturba com esses assuntos. O bebê que ainda não aprendeu a sorrir mantém sua pureza, ignorando os estímulos exteriores.
O povão gosta da abundância e busca a fartura. Lao Tzu não está nem aí pra isso.
Em vez uma superfície plácida, ele tem marolas como o mar. Em vez de estático e imóvel, ele se agita como o vento.
Enfim, ele valoriza "a mãe que alimenta". A "mãe de todas as coisas" é o Tao (ver poema 1), e falar que é alimentado por essa mãe quer dizer que ele é sustentado pelo Tao.


Poema 21 do Tao Te Ching

孔德之容
唯道是從
道之為物
唯恍唯惚
忽兮恍兮
其中有象
恍兮忽兮
其中有物
窈兮冥兮
其中有精
其精甚真
其中有信
自古及今
其名不去
以順衆甫
吾何以知衆甫之然哉
以此

A expressão do grande Poder
Está em seguir o Tao.
A materialização do Tao
É, de fato, indefinida e indistinta.
Indistinta!! Indefinida!!
Em seu interior estão as formas.
Indefinida!! Indistinta!!
Em seu interior estão as coisas.
Profundo!! Obscuro!!
Em seu interior está a essência.
Sua essência é o mais verdadeiro.
Nela está a certeza.
Desde tempos antigos até agora,
Seu nome não se perdeu.
A ele segue o patriarca dos povos.
Como eu conheço a natureza do patriarca dos povos?
Por isso.


Lembrando que o Tao Te Ching é o "Clássico do Tao e seu Poder", temos aqui uma menção a esse poder: ele se manifesta naquele que segue o Tao. O caractere 德 significa, comumente, "virtude, moralidade", mas a filosofia taoísta utiliza-o para expressar a manifestação do Tao em alguém, ou o poder vindo do Tao. Vários capítulos vão se dedicar ao tema desse Poder.
Quando o Tao está para ser manifestado como esse Poder, não é bem discernível. Mas em seu interior está a ideia (forma), a materialidade e a essência de todas as coisas.
E, numa espécie de círculo que contém a si mesmo, dentro da essência está aquilo que não perde o nome, isto é, o Tao. O patriarca de todos os povos, isto é, a origem de tudo, se conforma ao Tao e por isso existe. Se não se conformasse ao Tao, não existiria.

8 de fev. de 2016

"APRESENTANDO O TAO TE CHING" 14, 15, 16 e 17

Poema 14 do Tao Te Ching

視之不見
名曰夷
聽之不聞
名曰希
搏之不得
名曰微
此三者不可致詰
故混而為一
其上不皦
其下不昧
繩繩不可名
復歸於無物
是謂無狀之狀
無物之象
是謂惚恍
迎之不見其首
隨之不見其後
執古之道
以御今之有
能知古始
是謂道紀

Quando olhado, não é visto:
Seu nome é "Raso".
Quando escutado, não é ouvido:
Seu nome é "Esparso".
Quando é perseguido, não é obtido:
Seu nome é "Mínimo".
Com esses três não é possível investigar,
E tudo se confunde num só.
Superiormente, não reluz.
Inferiormente, não faz sombra.
Sua continuidade não pode ser nomeada.
Ao retornar ao imaterial, é chamado "Forma sem forma";
A imagem do imaterial é chamada "Nebuloso".
Quando está vindo, não se vê sua frente;
Quando se vai atrás dele, não se veem suas costas.
O Tao que mantém o passado,
Por possuir o controle do agora,
Conhece o princípio primordial.
Isso é chamado "marcas do Tao".

A realidade do Tao não pode ser apreendida pelos sentidos ordinários. Cada um deles percebe o Tao de maneira particular e superficial.
Ele está além da visão que separa cima e baixo, dentro e fora, eu e o outro. Ele está em constante movimento, e recebe diferentes nomes em cada momento ou função. Assim, a vida se movimenta, entre o material e o imaterial, e um não vem antes do outro.
Ao longo do tempo, há o Tao.
Essas características, percepções e funções, são as marcas do Tao, ou o registro dele no mundo perceptível.


Poema 15 do Tao Te Ching

古之善為道者
微妙玄通
深不可識
夫唯不可識
故強為之容
豫兮若冬涉川
猶兮若畏四鄰
儼兮其若客
渙兮若冰之將釋
敦兮其若樸
曠兮其若谷
混兮其若濁
孰能濁以靜之徐清
孰能安以久動之徐生
保此道者
不欲盈
夫唯不盈
故能蔽不新成

Na antiguidade, os perfeitos seguidores do Tao
Eram sutis, obscuros e a tudo alcançavam.
Impossível conhecê-los em profundidade.
Não se podendo conhecê-los, forçamos uma descrição:
Precavidos, como quem atravessa um rio no inverno;
Tímidos, como quem receia todos os vizinhos;
Discretos, como um hóspede;
Desvanecidos, como o gelo que derrete;
Simplório, como um pedaço de pau;
Amplos, como os vales;
Confusos, como a água turva;
A água turva, em repouso, clareia aos poucos;
O que está em repouso, tarda em mover, e cresce aos poucos;
Aquele que guarda esse Tao
Não deseja tornar-se repleto;
Assim pode evitar ser cheio até a repleção.


O poema inicia se referindo à "antiguidade". Laozi observava a situação caótica da sociedade, e localizava seu mundo ideal num período anterior à civilização.
A lista de comparações busca evidenciar a incompreensão das pessoas civilizadas frente ao perfeito seguidor do Tao.
No final, o autor destaca que o perfeito seguidor do Tao não deseja tornar-se repleto, ou totalmente "cheio", pois, como visto no poema 11, o seu poder está no Vazio.


Poema 16 do Tao Te Ching

致虛極
守靜督
萬物並作
吾以觀復
夫物芸芸
各復歸其根
歸根曰靜
是謂復命
復命曰常
知常曰明
不知常
妄作凶
知常容
容乃公
公乃王
王乃天
天乃道
道乃久
沒身不殆

Alcançar o Vazio é o ponto máximo;
Guardar a quietude é a norma principal.
Todas as coisas surgem solidariamente,
E contemplamos o seu retorno.
As coisas existem em uma variedade de expressões,
Cada uma retorna à sua origem.
Retornar à origem é quietude;
Isso é chamado retornar à vida ordenada.
Retornar à vida ordenada é o Permanente.
Conhecer o Permanente é iluminação.
Não conhecer o Permanente é perder-se na desgraça.
Conhecer o Permanente é ter tolerância;
Tolerância leva à comunhão;
Comunhão leva a ser rei;
Ser rei leva ao Céu;
O céu leva ao Tao;
O Tao leva à longa existência.
Até o seu fim, não haverá perigo.


As coisas existem dentro de um ciclo. Todas surgem, existem por um tempo, e retornam ao seu princípio. Existe interdependência entre todas as coisas, e, apesar de tomarem diferentes formas, todas cumprem esse ciclo.
Retornar à sua origem é algo prescrito também para a sociedade humana moderna. Retornar à origem é voltar para a sua natureza primordial, para a vida "ordenada", constituída. "Vida", nesse sentido, se escreve . Uma voz () que faz um chamamento (). Uma vida com direção. Um outro conceito de vida é , que representa uma plantinha brotando do chão. É o conceito da vida biológica, vegetativa. "Being Tao" em chinês é 命道 - o Caminho (Tao) da Vida.
O que o poema chama de "Permanente" é a qualidade de ser mutável, que permeia tudo. "Só uma coisa não muda: o fato de tudo estar se transformando".
Ter a realização disso nos torna mais compreensivos e tolerantes. Assim podemos viver em comunidade. Uma comunidade onde há tolerância recíproca tem poder de se governar. Tal governo segue a lei do Céu, que é o Tao. E dentro do Tao, tudo se mantém por muito tempo.


Poema 17 do Tao Te Ching

太上
下知有之
其次
親而譽之
其次
畏之
其次
侮之

信不足焉
有不信焉
悠兮
其貴言
功成事遂
百姓皆謂
我自然

Do Grande Supremo,
Os de baixo só sabem da existência;
Ao que vem em seguida,
Eles amam e louvam;
Ao que vem em seguida,
Eles temem;
Ao que vem em seguida,
Eles desprezam.
Quem não confia o bastante
Não receberá confiança.
Relaxe!
A sua palavra é valorizada.
O trabalho é realizado e a tarefa, cumprida.
E o povo comum dirá:
"Fizemos naturalmente."


Mais um poema dirigido aos governantes. A sequencia apresentada no início (onde há um superior de quem só sabem que existe, depois há outro a quem amam e louvam, e assim por diante) é melhor entendida se vista como uma cronologia. Numa época remota e perfeita, o povo só sabia que o governante existia, e não tinha outras preocupações à respeito dele. Conforme o tempo passa, essa relação se deteriora: o governante precisa mostrar suas obras para ser amado, precisa mostrar seu poder para ser temido, e é desprezado quando erra.
O governante deve confiar no Tao, assim será digno da confiança daqueles abaixo dele. O que ele diz é levado em conta. Tudo é realizado a contento. E o povo a tudo faz sem se sentir constrangido, de livre e espontânea vontade.


Curiosidade: "povo comum" é 百姓. Literalmente, "cem sobrenomes".
Apesar da imensa população da China, os chineses compartilham umas poucas centenas de sobrenomes. Existem, por exemplo, cem milhões de chineses com o sobrenome . Todos os que tem o mesmo sobrenome compartilham de algum ancestral comum. Por outro lado, os nomes pessoais são bastante exclusivos, e é difícil encontrar alguém com o mesmo nome.

- a imensa maioria dos chineses tem um sobrenome de uma sílaba (Woo, Wang, Zhang, Zhao,...) e um nome pessoal de duas sílabas (Moo-Shong, Hsiao-Po, Honghua, Deming,...)

- Alguns chineses tem o nome pessoal com apenas uma sílaba. Por exemplo, Li Ding (um famoso mestre de Qigong - seu sobrenome é "Li" e seu nome pessoal, "Ding").

- existe uma meia dúzia de sobrenomes com duas sílabas. O sobrenome da minha avó era "Ouyang", o sobrenome do grande historiador da antiguidade chinesa, Sima Qian, também tem duas sílabas ("Sima").

3 de fev. de 2016

"APRESENTANDO O TAO TE CHING" 9, 10, 11, 12 e 13

Poema 9 do Tao Te Ching

持而盈之
不如其已
揣而銳之
不可長保
金玉滿堂
莫之能守
富貴而驕
自遺其咎
功遂身退
天之道

Manter o vaso cheio
Não é tão bom quanto renunciar a si mesmo.
Afiar continuamente um punhal
Faz com que ele não dure muito.
Um salão cheio de ouro e jade
Não pode ser mantido em segurança.
Orgulhar-se de riquezas e honrarias
Faz com que elas mesmas sejam perdidas.
Concluir o trabalho e afastar-se,
Esse é o Tao do Céu.


O "vaso" a que se refere o primeiro verso é um vaso ritual utilizado nas cerimônias confucionistas. Mais uma vez, uma crítica de Lao Tzu ao que ele considera um excesso de valorização dos rituais e cerimônias.
O poema segue, criticando os excessos, que muitas vezes são causa de ruína.
O comedimento e a temperança são o Tao do Céu, isto é, a Lei Natural que conduz à felicidade.

Curiosidade cultural: muitas vezes os pais chineses escolhem os nomes dos filhos inspirando-se em algum trecho de obras clássicas. Quando eu e meu pai estivemos em Chenjiagou (vila onde se originou o Tai Chi Chuan, e onde virtualmente toda a população pratica), ele criou uma forte amizade com o mestre Huang Man-Tang. Os nomes de pessoa no Oriente tem, em primeiro lugar, o nome de família, e, depois, o nome próprio. O nome do meu pai é, segundo o costume oriental, Woo Moo-Shong. Pois bem, o nome próprio do mestre Huang é "Man-Tang", ou "Salão Pleno", expressão que aparece no quinto verso do poema acima e que exprime o desejo dos seus pais de uma casa com fartura, onde nada falte.


Capítulo 10 do Tao Te Ching
A composição desse poema abre um amplo leque de interpretações possíveis.

載營魄抱一
能無離乎
專氣致柔
能嬰兒乎
滌除玄覽
能無疵乎
愛民治國
能無知乎
天門開闔
能為雌乎
明白四達
能無知乎

生之畜之
生而不有
為而不恃
長而不宰
是謂玄德

Fazendo uso da alma, abraça-se o Um;
É possível, então, não O deixar?
Concentrando o Qi, alcançamos a suavidade;
É possível, então, ser como um bebê?
Purificando a visão profunda,
É possível livrá-la de máculas?
Amar o povo e dirigir o país,
Pode ser feito sem o conhecimento?
Abrir e fechar as portas do céu,
Pode ser feito com feminilidade?
Ter a visão clara dos quatro extremos,
É possível sem o conhecimento?

Gerar, nutrir;
Gerar sem se apoderar;
Realizar sem condicionantes;
Fazer crescer sem dominar;
Isso se chama Poder Misterioso.


O poema começa com uma série de perguntas. Esse questionário avalia se o sujeito alcançou o Tao e se já se imbuiu do seu Poder ("Te", o Poder do Caminho, ou o poder manifesto por aquele que já realizou o Tao).

No taoísmo, temos várias expressões da alma:
é geralmente traduzido como alma corpórea - é a porção animal da alma;
é geralmente traduzido como alma extra-corpórea - a porção da alma que carrega nossas memórias e experiências; e assim por diante.
No poema, representa toda a nossa composição, todo o nosso ser. Se praticarmos até obtermos o Um, ou o Tao, seria possível deixarmos de tê-lo? (num paralelo pobre, mas que esclarece: "é possível que um ovo já cozido volte a ser cru?")

O verso que trata a concentração no Qi fundamenta as práticas de qigong ainda hoje.
A palavra "conhecimento" () no texto se refere ao conhecimento racional, objetivo, conceitual.
Quem responde "sim" a essas perguntas, obteve a visão profunda do Tao e alcançou seu misterioso poder.
Obs.: segundo verso - melhor escrito como "É possível, então, sempre O manter?"

Essas perguntas retóricas com negativas...


Poema 11 do Tao Te Ching
三十輻
共一轂
當其無
有車之用
埏埴以為器
當其無
有器之用
鑿戶牖以為室
當其無
有室之用
故有之以為利
無之以為用

Trinta raios de uma roda
Reúnem-se no eixo,
Mas é o seu vazio (onde o eixo se encaixa)
Que concede função ao carro.
A argila dá forma ao vaso,
Mas é o seu vazio
Que lhe dá utilidade.
Portas e janelas se destacam na parede,
Mas é o seu vazio (sua abertura)
Que torna útil a casa.
O Existir busca o acúmulo.
O Não-existir busca a função.

Conferimos a qualidade de ser real àquilo que vemos, tocamos, pesamos, medimos. Mas "a coisa" que permite que elas funcionem é o próprio vazio.
Em Medicina falamos de "estrutura e função". O paradigma antigo prescrevia que um mau funcionamento seria decorrente, necessariamente, de uma alteração na estrutura. Mas a observação de que haviam, sim, distúrbios funcionais, sem comprometimento estrutural, mudou essa visão.
Em nosso relacionamento com os demais, que valores temos mais prezados? Os exteriores e visíveis, ou a própria dinâmica da amizade?
Em nosso trabalho conosco mesmo, será que temos nos apegado a construções de orgulho, mecanismos de defesa, de neuroses? O que é o nosso vazio interno, pleno de potencialidade?


Poema 12 do Tao Te Ching

五色令人目盲
五音令人耳聾
五味令人口爽
馳騁田獵
令人心發狂
難得之貨
令人行妨
是以聖人
為腹不為目
故去彼取此

As cinco cores tornam as pessoas cegas;
As cinco notas musicais tornam as pessoas surdas;
Os cinco sabores tornam as pessoas sem paladar;
Galopadas e caçadas nos campos
Deixam as pessoas com a mente perturbada;
Haver objetos que são difíceis de se obter
Faz com que haja necessidade de os esconder.
Por isso, o Sábio
Age em prol da barriga e não em prol do olho,
Recusa este e busca aquele.


A quantidade "cinco" se refere aos Cinco Elementos: Madeira, Fogo, Terra, Metal e Água. Na filosofia chinesa, esses cinco elementos abarcam todos os fenômenos. Assim, "cinco" significa "toda a variedade".
As cinco cores são: verde, vermelho, amarelo, branco e preto. A música tradicional chinesa utiliza a escala pentatônica, com cinco notas musicais: shang, yu, jue, zhi, gong. Os cinco sabores são: ácido, amargo, doce, picante e salgado.

Embriagar-se com a riqueza de estímulos que chegam aos nossos sentidos embota a nossa percepção. Deixar-se levar por aquilo que nos dá apenas prazer ("galopadas e caçadas") prejudica a capacidade de julgar a realidade.
Agir em prol da barriga é encontrar satisfação em saciar as necessidades fundamentais.
Não agir em prol do olho é não cobiçar aquilo que é além da conta, o supérfluo. E quanta coisa supérflua tomamos como essenciais!


Poema 13 do Tao Te Ching

寵辱若驚
貴大患若身

何謂寵辱若驚
寵為下
得之若驚
失之若驚
是謂寵辱若驚

何謂貴大患若身
吾所以有大患者
為吾有身
及吾無身
吾有何患

故貴以身為天下
若可寄天下
愛以身為天下
若可託天下

O agrado rebaixa, causa temor.
Considere as grandes desgraças como a si mesmo.

O que quer dizer "O agrado rebaixa, causa temor"?
O agrado inferioriza,
Recebê-lo causa temor,
Deixar de tê-lo causa temor.
Isso é que quer dizer "O agrado rebaixa, causa temor".

O que quer dizer "Considere as grandes desgraças como a si mesmo"?
Para que eu sofra grande desgraça,
É preciso que eu tenha um eu-mesmo.
Se eu não tivesse um eu-mesmo,
Que desgraça eu poderia sofrer?

Assim, àquele que valoriza a si mesmo tanto quanto valoriza o mundo
Pode-se confiar o mundo.
Àquele que ama a si mesmo tanto quanto o mundo
Pode-se entregar o mundo.


Receber agrados, ser elogiado, tudo isso pode nos tornar dependentes da sensação de satisfação com nós mesmos. Essa possibilidade amedronta (). Nesse caractere há a figura do cavalo (), então imaginamos um cavalo que está assustado. É essa sensação de medo e inquietação que é referida aqui, e que aparece na expectativa do agrado ("Eu mereço! Cadê o elogio?") e quando não recebemos o agrado ("Sou bom, por que não sou elogiado?").

Sentimos aflições porque somos centrados em nós mesmos, num "eu" que construímos ao longo da vida, uma máscara que permite a interação com o mundo a nossa volta e protege de ameaças externas. É uma máscara tão funcional, e que vamos cultivando por tanto tempo, que pensamos que ela seja "eu".
Para não ter aflições, esvazie o "eu" (fácil falar, difícil realizar).

Fechando o poema, versos que lembram a obra de redenção contida na mensagem cristã: Aquele que ama o mundo como a si mesmo, a ele o mundo é confiado.

Curiosidade:
Fazer um agrado, mimar uma criança se escreve com . Ter um dragão () sob o mesmo teto (). Pais de crianças mimadas reconhecem a imagem.