3 de fev. de 2016

"APRESENTANDO O TAO TE CHING" 9, 10, 11, 12 e 13

Poema 9 do Tao Te Ching

持而盈之
不如其已
揣而銳之
不可長保
金玉滿堂
莫之能守
富貴而驕
自遺其咎
功遂身退
天之道

Manter o vaso cheio
Não é tão bom quanto renunciar a si mesmo.
Afiar continuamente um punhal
Faz com que ele não dure muito.
Um salão cheio de ouro e jade
Não pode ser mantido em segurança.
Orgulhar-se de riquezas e honrarias
Faz com que elas mesmas sejam perdidas.
Concluir o trabalho e afastar-se,
Esse é o Tao do Céu.


O "vaso" a que se refere o primeiro verso é um vaso ritual utilizado nas cerimônias confucionistas. Mais uma vez, uma crítica de Lao Tzu ao que ele considera um excesso de valorização dos rituais e cerimônias.
O poema segue, criticando os excessos, que muitas vezes são causa de ruína.
O comedimento e a temperança são o Tao do Céu, isto é, a Lei Natural que conduz à felicidade.

Curiosidade cultural: muitas vezes os pais chineses escolhem os nomes dos filhos inspirando-se em algum trecho de obras clássicas. Quando eu e meu pai estivemos em Chenjiagou (vila onde se originou o Tai Chi Chuan, e onde virtualmente toda a população pratica), ele criou uma forte amizade com o mestre Huang Man-Tang. Os nomes de pessoa no Oriente tem, em primeiro lugar, o nome de família, e, depois, o nome próprio. O nome do meu pai é, segundo o costume oriental, Woo Moo-Shong. Pois bem, o nome próprio do mestre Huang é "Man-Tang", ou "Salão Pleno", expressão que aparece no quinto verso do poema acima e que exprime o desejo dos seus pais de uma casa com fartura, onde nada falte.


Capítulo 10 do Tao Te Ching
A composição desse poema abre um amplo leque de interpretações possíveis.

載營魄抱一
能無離乎
專氣致柔
能嬰兒乎
滌除玄覽
能無疵乎
愛民治國
能無知乎
天門開闔
能為雌乎
明白四達
能無知乎

生之畜之
生而不有
為而不恃
長而不宰
是謂玄德

Fazendo uso da alma, abraça-se o Um;
É possível, então, não O deixar?
Concentrando o Qi, alcançamos a suavidade;
É possível, então, ser como um bebê?
Purificando a visão profunda,
É possível livrá-la de máculas?
Amar o povo e dirigir o país,
Pode ser feito sem o conhecimento?
Abrir e fechar as portas do céu,
Pode ser feito com feminilidade?
Ter a visão clara dos quatro extremos,
É possível sem o conhecimento?

Gerar, nutrir;
Gerar sem se apoderar;
Realizar sem condicionantes;
Fazer crescer sem dominar;
Isso se chama Poder Misterioso.


O poema começa com uma série de perguntas. Esse questionário avalia se o sujeito alcançou o Tao e se já se imbuiu do seu Poder ("Te", o Poder do Caminho, ou o poder manifesto por aquele que já realizou o Tao).

No taoísmo, temos várias expressões da alma:
é geralmente traduzido como alma corpórea - é a porção animal da alma;
é geralmente traduzido como alma extra-corpórea - a porção da alma que carrega nossas memórias e experiências; e assim por diante.
No poema, representa toda a nossa composição, todo o nosso ser. Se praticarmos até obtermos o Um, ou o Tao, seria possível deixarmos de tê-lo? (num paralelo pobre, mas que esclarece: "é possível que um ovo já cozido volte a ser cru?")

O verso que trata a concentração no Qi fundamenta as práticas de qigong ainda hoje.
A palavra "conhecimento" () no texto se refere ao conhecimento racional, objetivo, conceitual.
Quem responde "sim" a essas perguntas, obteve a visão profunda do Tao e alcançou seu misterioso poder.
Obs.: segundo verso - melhor escrito como "É possível, então, sempre O manter?"

Essas perguntas retóricas com negativas...


Poema 11 do Tao Te Ching
三十輻
共一轂
當其無
有車之用
埏埴以為器
當其無
有器之用
鑿戶牖以為室
當其無
有室之用
故有之以為利
無之以為用

Trinta raios de uma roda
Reúnem-se no eixo,
Mas é o seu vazio (onde o eixo se encaixa)
Que concede função ao carro.
A argila dá forma ao vaso,
Mas é o seu vazio
Que lhe dá utilidade.
Portas e janelas se destacam na parede,
Mas é o seu vazio (sua abertura)
Que torna útil a casa.
O Existir busca o acúmulo.
O Não-existir busca a função.

Conferimos a qualidade de ser real àquilo que vemos, tocamos, pesamos, medimos. Mas "a coisa" que permite que elas funcionem é o próprio vazio.
Em Medicina falamos de "estrutura e função". O paradigma antigo prescrevia que um mau funcionamento seria decorrente, necessariamente, de uma alteração na estrutura. Mas a observação de que haviam, sim, distúrbios funcionais, sem comprometimento estrutural, mudou essa visão.
Em nosso relacionamento com os demais, que valores temos mais prezados? Os exteriores e visíveis, ou a própria dinâmica da amizade?
Em nosso trabalho conosco mesmo, será que temos nos apegado a construções de orgulho, mecanismos de defesa, de neuroses? O que é o nosso vazio interno, pleno de potencialidade?


Poema 12 do Tao Te Ching

五色令人目盲
五音令人耳聾
五味令人口爽
馳騁田獵
令人心發狂
難得之貨
令人行妨
是以聖人
為腹不為目
故去彼取此

As cinco cores tornam as pessoas cegas;
As cinco notas musicais tornam as pessoas surdas;
Os cinco sabores tornam as pessoas sem paladar;
Galopadas e caçadas nos campos
Deixam as pessoas com a mente perturbada;
Haver objetos que são difíceis de se obter
Faz com que haja necessidade de os esconder.
Por isso, o Sábio
Age em prol da barriga e não em prol do olho,
Recusa este e busca aquele.


A quantidade "cinco" se refere aos Cinco Elementos: Madeira, Fogo, Terra, Metal e Água. Na filosofia chinesa, esses cinco elementos abarcam todos os fenômenos. Assim, "cinco" significa "toda a variedade".
As cinco cores são: verde, vermelho, amarelo, branco e preto. A música tradicional chinesa utiliza a escala pentatônica, com cinco notas musicais: shang, yu, jue, zhi, gong. Os cinco sabores são: ácido, amargo, doce, picante e salgado.

Embriagar-se com a riqueza de estímulos que chegam aos nossos sentidos embota a nossa percepção. Deixar-se levar por aquilo que nos dá apenas prazer ("galopadas e caçadas") prejudica a capacidade de julgar a realidade.
Agir em prol da barriga é encontrar satisfação em saciar as necessidades fundamentais.
Não agir em prol do olho é não cobiçar aquilo que é além da conta, o supérfluo. E quanta coisa supérflua tomamos como essenciais!


Poema 13 do Tao Te Ching

寵辱若驚
貴大患若身

何謂寵辱若驚
寵為下
得之若驚
失之若驚
是謂寵辱若驚

何謂貴大患若身
吾所以有大患者
為吾有身
及吾無身
吾有何患

故貴以身為天下
若可寄天下
愛以身為天下
若可託天下

O agrado rebaixa, causa temor.
Considere as grandes desgraças como a si mesmo.

O que quer dizer "O agrado rebaixa, causa temor"?
O agrado inferioriza,
Recebê-lo causa temor,
Deixar de tê-lo causa temor.
Isso é que quer dizer "O agrado rebaixa, causa temor".

O que quer dizer "Considere as grandes desgraças como a si mesmo"?
Para que eu sofra grande desgraça,
É preciso que eu tenha um eu-mesmo.
Se eu não tivesse um eu-mesmo,
Que desgraça eu poderia sofrer?

Assim, àquele que valoriza a si mesmo tanto quanto valoriza o mundo
Pode-se confiar o mundo.
Àquele que ama a si mesmo tanto quanto o mundo
Pode-se entregar o mundo.


Receber agrados, ser elogiado, tudo isso pode nos tornar dependentes da sensação de satisfação com nós mesmos. Essa possibilidade amedronta (). Nesse caractere há a figura do cavalo (), então imaginamos um cavalo que está assustado. É essa sensação de medo e inquietação que é referida aqui, e que aparece na expectativa do agrado ("Eu mereço! Cadê o elogio?") e quando não recebemos o agrado ("Sou bom, por que não sou elogiado?").

Sentimos aflições porque somos centrados em nós mesmos, num "eu" que construímos ao longo da vida, uma máscara que permite a interação com o mundo a nossa volta e protege de ameaças externas. É uma máscara tão funcional, e que vamos cultivando por tanto tempo, que pensamos que ela seja "eu".
Para não ter aflições, esvazie o "eu" (fácil falar, difícil realizar).

Fechando o poema, versos que lembram a obra de redenção contida na mensagem cristã: Aquele que ama o mundo como a si mesmo, a ele o mundo é confiado.

Curiosidade:
Fazer um agrado, mimar uma criança se escreve com . Ter um dragão () sob o mesmo teto (). Pais de crianças mimadas reconhecem a imagem.

1 de fev. de 2016

"APRESENTANDO O TAO TE CHING" 6, 7 e 8

Por: Aristein Woo
Poema 6 do Tao Te Ching
Um dos mais herméticos de todo o livro. Segue uma das traduções possíveis.

谷神不死
是謂玄牝
玄牝之門
是謂天地根
綿綿若存
用之不勤

O espírito do vale não morre,
É chamado "Fêmea Misteriosa".
O portal da "Fêmea Misteriosa"
É chamado "Raiz do Céu e da Terra".
Contínuo, como se sempre existente,
Sua aplicação não se esgota.

O espírito de um vale significa a atitude de um vale, que se mantém no baixo para receber as águas e os rios. É a simplicidade do sábio, que acolhe todas as variedades de pessoas, com seus pensamentos e maneiras de ser, e catalisa a sua transformação.
significa obscura, escondida, misteriosa.
significa a fêmea de um animal, ou fechadura, ou vale. Ou seja, aquilo que recebe algo, e gera uma mudança: surge um ser, uma porta se abre, forma-se um rio.
A habilidade "misteriosa" é a capacidade de acolher e transformar. Isso é a raiz do Céu e da Terra, o grande segredo do universo. Dominando esse segredo, o sábio se torna como que imortal, e seu poder não acaba.


Poema 7 do Tao Te Ching

天長地久
天地所以能長且久者
以其不自生
故能長生

是以聖人後其身
而身先
外其身而身存
非以其無私耶
故能成其私

O Céu perdura, a Terra subsiste.
O Céu e a Terra podem ter tão longa existência
Porque não vivem para si mesmos,
Assim, existem por muito tempo.

Da mesma forma, o Sábio coloca-se por último,
E mantém-se à frente.
Isso não seria exatamente porque renuncia ao seu Ego?
É desta forma que ele realiza o seu Eu.


Mais uma vez, a conduta do Sábio se mostra semelhante às do Céu e da Terra. Renunciando a posições de destaque, ele assume, sem esforço (wu wei) a liderança. Renunciando a si mesmo, ele realiza o próprio ser.


Poema 8 do Tao Te Ching

上善若水
水善利萬物而不爭
處衆人之所惡
故幾於道
居善地
心善淵
予善天
言善信
政善治
事善能
動善時
夫唯不爭故無尤

Aquele que tem a suprema excelência é como a água.
A água tem sua excelência em beneficiar a todos, em tranquilidade; ocupando o lugar desprezado por todos. Nisso já se aproxima do Tao.
Sua morada é o lugar excelente,
Sua mente é profunda por excelência,
Seu dom é celestial por excelência,
Sua palavra é confiável por excelência,
Seu governo é competente por excelência,
Seus atos são eficazes por excelência,
Suas ações são oportunas por excelência.
Basta manter a tranquilidade e não haverá falha.


O homem de suprema excelência, ou o Sábio, é comparado, neste poema, com a água.
Ele beneficia a todos, conservando sua tranquilidade. Dessa maneira, sua excelência se expressa em outros aspectos da sua vida. Onde ele mora é a moradia por excelência - mas isso porque ele já alcançou a excelência em sua própria natureza.
A partir da tranquilidade, ele passa a beneficiar a todos. Assim, ele alcança excelência em sua casa, em suas atividades diárias, em seus pensamentos, em suas palavras, etc.
Tudo começa com a tranquilidade. Partindo daí, não tem erro.

É interessante já notar, uma vez que será um tema abordado em outros trechos do Tao Te Ching, como são escritos os caracteres para "palavra" e "confiável":

- "palavra", vemos a boca (retângulo), de onde saem os sons (traços horizontais acima da boca).

- "confiável", é a "pessoa" "de palavra" .

24 de jan. de 2016

" APRESENTANDO O TAO TE CHING " 4 e 5

Quarto poema do Tao te Ching

道沖而用之有弗盈也
淵兮似萬物之宗
挫其銳
解其紛
和其光
同其塵
湛兮似或存
吾不知其誰之子也
象帝之先

O Tao transborda, mas em sua aplicação não se chega ao máximo.
É de tal profundidade! É como o ancestral de todas as coisas!
Desbasta suas pontas afiadas,
Desfaz os bordados,
Ameniza seu brilho,
Homogeneíza a sujeira.

É de tal profundeza! Como se de existência incerta!
E não de quem ele é filho,
Pois parece anterior a Deus.


A primeira linha é de tradução difícil, pois 沖 pode ser interpretado tanto como "vazio", quanto como "transbordante". Talvez uma boa imagem seja a de uma leiteira esquecida no fogo. O leite sobe e transborda, esvaziando a leiteira. Essa é a situação descrita como 沖. Mas mesmo assim, o Tao não se esgota. No Tao, as coisas não chegam aos seus extremos (abaixo as posições extremadas!). Vamos desbastar nossas pontas afiadas, nossas "certezas plenas", nossos "dogmas pessoais". Vamos desfazer nossos bordados, as firulas e salamaleques que ostentamos socialmente. Ameniza seu brilho, recolhe seu orgulho, contenha seu desejo de se exibir. Homogeneíza sua sujeira, no Tao você não é o mais santo, e nem o mais impuro.
O Tao é tão profundo, que não sei de onde vem. É anterior a Deus, pois transcende as ideias religiosas - e as participações de ontem do mestre Dada, Nildenor e Antonio trouxeram muita luz neste aspecto.


Quinto poema.

天地不仁以萬物為芻狗
聖人不仁以百姓為芻狗

天地之間其猶橐籥乎
虛而不屈
動而愈出
多言數窮
不如守中

O Céu e a Terra não tem benevolência, todas as coisas são "cães de palha" para eles.
O Sábio não tem benevolência, todas as pessoas são "cães de palha" para eles.

O espaço entre Céu e Terra não se assemelha a um fole?
Vazio, mas não se esgota;
Quanto mais se move, mais sai dele.
Quanto mais palavras, maior a pobreza.
Nem se compara a guardar o centro.


Na época em que esse livro foi composto, os templos produziam bonecos de palha em forma de cães, que ficavam armazenados em lugares especiais, aguardando o momento de serem oferecidos às divindades. Após a oferenda, eles eram descartados como lixo.
O Sábio olha os demais seres humanos assim como o Céu e a Terra olham todas as coisas: totalmente insignificantes, descartáveis como esses cães de palha. Essa é uma crítica ao confucionismo, que prega a benevolência como uma das principais virtudes a ser cultivada. Para Lao Tzu, ela é uma artificialidade a ser ignorada pelo sábio, pois os grandes poderes (Céu e Terra) também não a possuem.

Os Três Grandes Poderes são o Céu, a Terra e o Homem. O Homem ocupa o espaço entre os outros dois. E esse mundo humano é semelhante a um fole. É esvaziado e torna a se encher. Em sua agitação, mais e mais coisas são produzidas. Entre essas coisas, palavras para explicar o Tao. Quanto mais palavras se usam para explicá-lo, mais pobre é a ideia e a realidade que as pessoas têm dele. O melhor é guardar o vazio interior essencial.

¨APRESENTANDO O TAO TE CHING¨ 2 e 3

Segundo poema:

天下
皆知美之為美
斯惡已

皆知善之為善
斯不善已

Sob o céu (天下 expressão que significa "o mundo"),
Todos, ao saberem que o belo é belo, fazem com que o feio apareça.

Todos, ao saberem que o apropriado é apropriado, fazem com que o inapropriado apareça.

Belo, feio, apropriado e inapropriado, são conceitos. Ao aprendermos o conceito de "belo", simultaneamente formamos o conceito de "feio", e assim por diante. Aprendemos a ver o mundo de maneira dual. Ao formarmos a noção do que seja "eu", ainda bebês, formamos, simultaneamente, a noção do que seja "não-eu". E essa visão dualista vai perpassando todas nossas experiências ao longo da vida.

Continuando o segundo poema.


有無相生,
難易相成,
長短相較,
高下相傾,
意聲相和,
前後相隨。

Assim,
O existir e o não-existir geram-se mutuamente,
O difícil e o fácil determinam-se mutuamente,
O longo e o curto medem-se mutuamente,
O alto e o baixo voltam-se um para o outro,
O pensamento e a palavra harmonizam-se mutuamente,
O anterior e o posterior sucedem-se um ao outro.

Nessa sequência de exemplos, a descrição de cada par evidencia a íntima relação entre os seus elementos.
Além da aparente dualidade, existe uma unidade. Só podemos ver um lado da moeda de cada vez, mas as duas faces formam uma só unidade - a própria moeda.

Fechando o segundo poema:

是以聖人處無為之事
行不言之教

萬物作焉而不辭
生而不有
為而不恃

功成而弗居
夫唯弗居
是以不去

Assim, o Sábio trata os assuntos pelo Não-Agir,
concede ensinamentos sem falar.

Ele não se esquiva de realizar as coisas.
Produz, mas não para possuir.
Conclui, sem depender de nada.

Ele obtém sucesso, mas não o guarda. Ele não reivindica ganho, por isso não o perde.

Ter a compreensão intelectual de que existe unidade subjacente à aparente dualidade não é tão difícil. Mas realizar essa verdade por completo implica uma sabedoria que está além das palavras. Quem o consegue é um verdadeiro Sábio, que ensina e faz de maneira não-dualista. Tudo já está nele, sem que ele faça questão disso.

Aparecem, nesse poema, dois conceitos importantes:
- o Sábio (聖人), que é aquele que realizou o Tao.
O caractere 聖 pode ser interpretado como o "rei" (王) que sabe quando "ouvir" (耳) e quando falar (口).

- "Não-Agir" (Wu Wei 無為): conceito que permeia toda a visão taoísta, e de difícil compreensão num ambiente em que precisamos fazer para ter. Significa não fazer oposição às leis naturais, realizando por meio de apenas seguir o curso da Natureza.

Os próximos três poemas são polêmicos e ferem a nossa visão da realidade.

Na época em que o Tao Te Ching foi escrito, a China estava dividida em dezenas de reinos independentes e rivais. A situação era caótica. As várias escolas filosóficas que surgiram no período propunham diferentes soluções para o problema. O taoísmo propunha o retorno a uma situação de plena harmonia com a natureza, despida de instituições humanas fabricadas/artificiais. Assim, alguns poemas foram escritos para aquele público específico. Mantendo isso em vista, podemos apreciar esses poemas e extrair deles algo proveitoso para a nossa situação presente.

O próximo poema apresenta conselhos para um governo sábio


Terceiro poema

不尚賢使民不爭
不貴難得之貨使民不為盜
不見可欲使心不亂

Não privilegiar os homens capazes faz com que o povo não crie conflitos;
Não valorizar o que é difícil de obter faz com que o povo não se torne ladrão;
Não ver o que pode vir a ser desejado faz com que a mente não se confunda.

Privilegiar os que são mais capazes provoca, por um lado, inveja; por outro, idolatria ou culto da personalidade. Ambas as situações são potencialmente belicosas.

Se a pessoa não tomar conhecimento daquilo que é inalcançável para ela, isso não gerará revolta.

Trabalhei numa localidade pobre, onde haviam duas situações distintas. Uma área era muito carente, sem energia elétrica e sem condições de transporte. A outra área já tinha casa de tijolos, luz elétrica e podia pagar a passagem de ônibus até o centro urbano (uma cidade pequena). O trabalho na área muito carente era mais recompensador, as pessoas eram mais gratas, seguiam melhor as orientações, e havia menos violência do que na área menos carente.
As pessoas que moravam na parte mais "remediada" tinha mais conhecimento do mundo exterior, dos luxos e de todas as benesses que elas "jamais" teriam. Isso gerava uma revolta, que resultava na situação que presenciei lá.


Finalizando o terceiro poema do Tao Te Ching:

是以
聖人之治
虛其心
實其腹
弱其志
強其骨

常使民無知無欲
使夫知者不敢為也
為無為則無不治

Por isso,
No governo do Sábio,
Se esvaziam suas mentes,
Se enchem suas barrigas,
Se enfraquecem suas vontades,
Se fortalecem seus ossos.

Sempre se mantém o povo sem conhecimento e sem desejo,
Assim, o inteligente não ousará assumir o governo.
Agindo, sem agir, não há o que não possa ser governado.


Se os ditos acima fossem apenas recomendações mundanas, o resultado seria um regime político semelhante ao da Coreia do Norte. E é uma das interpretações possíveis. Existe, também, a abordagem desse poema a partir de uma visão militar estratégica.
Para nós do Being Tao, no entanto, esse poema deve ser lido sob a óptica da MTC - Medicina Tradicional Chinesa.
Na MTC, o nosso organismo (com todos os aspectos físicos, emocionais e espirituais) é comparado com a estrutura de um império no livro "Clássico de Medicina do Imperador Amarelo". Assim, o "coração" é o imperador, o "pericárdio" é o principal ministro, o "fígado" é o general, e assim por diante.
Então, no poema acima, o Sábio é a própria pessoa quando vive de maneira saudável. A mente deve ser esvaziada de preocupações, culpas e angústias; o corpo, bem nutrido; os desejos, enfraquecidos; a nossa constituição, robustecida.
Praticar Being Tao é praticar o Wu Wei e desenvolver a sua saúde. E isso está ao alcance de todos. "Não há o que não possa ser "governado".
O caractere "治" aparece em 治國 (governar um país) e em 治療 (tratamento de saúde).

17 de jan. de 2016

" APRESENTANDO O TAO TE CHING "


Apresentando o Tao Te Ching
O Tao Te Ching, também grafado como "Tao Teh King", ou "Daodejing", é o livro fundamental da filosofia taoísta e sua autoria é atribuída a Lao Tzu (tbm transcrito como "Lao Tsé" ou "Laozi").

Sobre o título:
Tao: o Caminho
Te: o Poder desse Caminho
Ching: Clássico ou Cânone
Assim, temos "O Clássico do Caminho e seu Poder"

O Tao Te Ching começa com o célebre verso "O Tao que pode ser descrito em palavras não é o Tao permanente."

É interessante vermos muito rapidamente o verso no original: 道可道非常道。
A palavra Tao aparece TRÊS vezes. Na primeira e na terceira vez, como substantivo, mas na segunda, como verbo.
Brincando com as palavras, diríamos que o Tao que pode ser "Taozado" não é o Tao permanente.

O seu significado como substantivo é "Caminho, Ensinamento, Princípio Fundamental". E o seu significado como verbo é "Falar, relatar, enunciar". E, por apresentar tanto o aspecto de "Princípio Fundamental" quanto o de "Palavra", o Tao aproxima-se do Logos do Evangelho. Tanto que na tradução da bíblia para o chinês, escreve-se "No princípio era o Tao, e o Tao estava com Deus, e o Tao era Deus."

"O nome que pode ser nomeado não é o Nome permanente."

O verso é construído num exato paralelo do anterior: 名可名非常名. Assim, "Nome" é um dos atributos de um "Tao". O "nome que pode ser nomeado" corresponde ao "tao que pode ser descrito em palavras" - ambos não se referem àquilo que que é chamado de "permanente" por Lao Tzu.

Em seguida,
"O Sem Nome é o princípio do Céu e da Terra, o Com Nome é a mãe de todas as coisas."
無名天地之始
有名萬物之母

Aí se trata do Tao permanente em suas duas manifestações:
• "Sem Nome" (無名), o Tao amorfo primordial, existente desde antes do início, e, por isso, princípio do Céu - mundo espiritual () e da Terra - mundo material ().
• "Com Nome" (有名), o Tao do universo como o conhecemos, "Mãe" () das "Dez Mil Coisas" (萬物), ou seja, a base que gera, que produz, todas as coisas observáveis.

Finalizando o primeiro poema do Tao Te Ching:

此兩者
同出而異名
同謂之玄

玄之又玄
眾妙之門

Esses dois (o "com nome" e o "sem nome")
surgem juntos mas recebem denominações diferentes. Em conjunto, são chamados "Obscuro".

No Obscuro, há algo ainda mais obscuro, o portal para a multitude de maravilhas.

O taoísmo se prima por afastar-se dos extremos, pois o Tao está tão presente no espiritual quanto no material - ambos estão juntos. Um sacerdote que despreza o próprio corpo e um fisiculturista que não nutre seu espírito estão igualmente distantes do centro. E esse misterioso centro é o portal para as mil maravilhas.

Continuando a leitura do Tao Te Ching, os próximos versos dizem:

故常無欲
以觀其妙

常有欲
以觀其徼

"Assim, estando sempre sem desejo (cobiça), conseguimos contemplar seu mistério.
Estando sempre com desejo (cobiça), conseguimos contemplar seu contorno."

Apesar do Tao não poder ser descrito por palavras, nós podemos realizá-lo. A chave é não nos prendermos aos desejos, que nos arrastam de objeto em objeto, gerando insatisfação sem fim. Libertando-nos dos desejos, compreendemos a essência do Tao. Enquanto somos escravos dos desejos, apenas vislumbramos seu esboço.